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Saúde mental

Luto faz parte do trabalho: por que discutir a saúde mental dos oncologistas é importante?

Na oncologia, perder pacientes não é raro. Especialistas dizem que o luto do profissional é normal, mas muitas vezes não é validado

A medicina é uma profissão desafiadora, e isso não é novidade para ninguém. Porém, existem particularidades de cada especialidade que são pouco discutidas. O XI Congresso Internacional Oncologia D’Or – Onco in Rio 2026, realizado no Rio de Janeiro, trouxe à tona uma delas: a saúde mental e o luto vivenciado pelos médicos oncologistas. 

“Na oncologia, as perdas não são eventos isolados: elas são parte da prática clínica”, disse Erika Pallottino, psicóloga clínica especialista em luto, em apresentação durante o evento. 

Ela destacou que essa discussão, na realidade, não se restringe somente ao médico, mas pode ser ampliada aos outros profissionais de saúde envolvidos no atendimento oncológico. 

 

Formação médica valoriza o distanciamento

Segundo Pallottino, a formação médica historicamente oferece objetividade, controle emocional e sensação de distanciamento e neutralidade. Para ela, os profissionais de saúde são treinados com a ideia utópica de “assepsia emocional”, muitas vezes acreditando que se distanciar do paciente é necessário para manter a qualidade da intervenção.

“Mas [diante do sofrimento das pessoas], como você não sente, como você não se afeta? O que a gente sabe é que a emoção, quando não escoa, quando fica reprimida, velada ou não autorizada pela gente, isso tem consequências.”

Para Clarissa Baldotto, oncologista, diretora de Cuidado Integrado da Oncologia D’Or — Regional Rio de Janeiro e presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), o ponto positivo é que hoje se fala sobre saúde mental dos profissionais

“Quando eu terminei a residência, praticamente não se falava [sobre o assunto]. E realmente era uma pressão no sentido de você não demonstrar tristeza, como se fosse uma fraqueza do ponto de vista técnico. Isso melhorou. Mas ainda precisa ser trabalhado, porque tem pessoas que são mais impactadas, depende do relacionamento que se tem com o paciente. [Com] Cada paciente é de uma forma diferente”, afirmou.

Veja também: A saúde dos médicos não anda nada bem

 

Perdas são frequentes na oncologia

Lidar com a perda é uma realidade frequente na oncologia, e o luto pelo paciente é legítimo, destacou Pallottino. 

“Evidências mostram que o oncologista vai perder entre 10 a 20 pacientes no ano. Se você tem 30 anos de carreira, você vai ter em torno de 300 a 600 mortes ao longo da carreira. A gente vai estar exposto não só ao óbito de fato, mas à trajetória e ao impacto emocional e subjetivo que isso vai provocar na vida da gente.”

A psicóloga diz que existem fatores de proteção para os profissionais que atuam na área, como equipes que trabalhem de forma interdisciplinar; suporte institucional; comunicação eficaz com o paciente, os familiares e a equipe; e construção de sentido no trabalho.

Em relação ao último, ela explica que, quando o profissional se desconecta do trabalho, há um risco de adoecimento. “Isso é grave porque ele [o trabalho] impacta grande parte da nossa identidade. Portanto, cuidar da saúde mental do oncologista não é apenas uma questão de bem-estar profissional, mas é também uma condição para preservar a qualidade do cuidado que a gente oferece aos nossos pacientes”, afirmou.

Diante do luto, Baldotto conta que muitas vezes o conforto vem da própria família do paciente que se foi. 

“A família conforta a gente às vezes também. É muito comum quando acontece com um paciente que temos muita proximidade, você está triste e recebe uma mensagem da família agradecendo e você pensa: ‘poxa, a pessoa está em sofrimento e está agradecendo’. Isso dá um conforto para a gente. No final, a gente fez tudo que podia fazer.”

 

Luto é diferente de burnout, mas eles podem coexistir

Embora o burnout seja comum entre oncologistas, nem todo sofrimento emocional do médico é burnout: às vezes, é luto não reconhecido

Enquanto o luto é uma reação normal, esperada diante da perda do paciente, o burnout está associado à exaustão pela sobrecarga de trabalho. Um estudo apresentado no congresso da American Society of Clinical Oncology (ASCO) sobre bem-estar e saúde mental apontou que 59% dos oncologistas apresentam sintomas de burnout. 

“O burnout sim é um problema, mas o luto não é. E a gente finge que ele [o luto] não existe nesse cenário”, disse a psicóloga. De acordo com a especialista, em muitas situações, o luto não é legitimado pelo próprio profissional, justamente pela ideia de distanciamento e neutralidade. 

Outro artigo mais recente, destacou Pallattino, relacionou as duas condições: entre 123 profissionais, 93% relataram pelo menos um sintoma de luto; metade relatou sintomas de burnout; e 31% dos casos de burnout foram atribuídos ao luto. “Então, não é uma coisa ou outra: eles acontecem concomitantemente, trazendo impacto muito importante na saúde mental do profissional.”

Veja também: O luto faz parte da vida, mas é preciso atenção

 

Trocas entre colegas podem ajudar

Para Baldotto, ainda há pouco suporte de saúde mental nos programas de residência. “Existem ambulatórios para as pessoas que adoecem, mas [serviços] de prevenção tem muito pouco.”

Contudo, só o fato de a conversa existir já é um primeiro passo. Ela conta, por exemplo, que realiza sessões mensais com os residentes na Oncologia D’Or nas quais são compartilhadas sugestões de filmes, séries, livros ou outras obras que muitas vezes têm relação com experiências vividas com os pacientes. “Nisso, saem conversas com a família e até entre a gente mesmo, sobre como a gente lida com a pressão do consultório”, relatou.

Pallottino comenta que, muitas vezes, os profissionais aderem com mais facilidade a espaços informais que as próprias equipes promovem. Porém, a construção de protocolos institucionais que ajudem os profissionais a lidar com o luto também seria muito importante. 

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