Embora novos medicamentos tenham ampliado as possibilidades terapêuticas na psiquiatria nas últimas décadas, poucos conseguiram reunir um conjunto de evidências tão robusto quanto o lítio no tratamento de transtornos do humor.
Considerado um dos primeiros medicamentos eficazes da psiquiatria moderna, ele continua sendo uma das principais opções para reduzir recaídas e prevenir novas crises.
“O lítio representa um dos psicofármacos primordiais no tratamento do transtorno bipolar. É aquele que mudou seu prognóstico. É um estabilizador de humor que atua tanto na prevenção quanto na redução dos episódios de mania e também pode ser utilizado como adjuvante em casos de depressão”, afirma Antônio Geraldo da Silva, psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).
As diretrizes do Ministério da Saúde para o tratamento do transtorno bipolar incluem o lítio entre as principais opções terapêuticas para controle dos sintomas e manutenção da estabilidade clínica.
Evidências que atravessam décadas
A permanência do lítio entre os tratamentos de referência não está relacionada apenas ao tempo de utilização, mas ao volume de evidências científicas acumuladas ao longo dos anos.
Diversos estudos demonstraram sua eficácia no controle dos sintomas e, principalmente, na prevenção de recaídas. Uma revisão publicada na revista científica The Lancet destacou que o medicamento permanece entre as opções mais eficazes para manutenção do tratamento em pessoas com transtorno bipolar.
Na prática clínica, essa eficácia costuma ser observada já nas primeiras semanas de tratamento. “Nos episódios de mania aguda por transtorno bipolar, o lítio é considerado a primeira linha de prescrição, com exceções específicas. Metade dos pacientes que se tratam apenas com isso já indica melhora após três ou quatro semanas”, explica Silva.
Além do controle das crises, os benefícios do tratamento também se estendem à prevenção de novos episódios e à redução de complicações associadas ao transtorno.
“O lítio auxilia pacientes com transtorno bipolar com depressão severa e tem efeitos terapêuticos relacionados à queda em taxas de suicídio, à diminuição das internações hospitalares e à eficácia na prevenção de episódios depressivos”, afirma o especialista.
A relação entre o lítio e a redução do risco de suicídio está entre os aspectos mais investigados pela literatura científica. Evidências dessa associação foram reunidas em uma revisão sistemática publicada pelo British Medical Journal (BMJ), considerada uma das principais referências científicas sobre o tema.
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O tratamento continua mesmo fora das crises
Um dos diferenciais do tratamento com lítio é seu papel na manutenção da estabilidade clínica ao longo do tempo. “Além de ser eficaz no tratamento de episódios agudos de mania e depressão bipolar, ele exerce um papel preventivo importante contra novos episódios, especialmente em casos de mania”, destaca o psiquiatra.
Essa característica é especialmente relevante porque o transtorno bipolar costuma apresentar caráter recorrente. Sem acompanhamento adequado, o risco de novos episódios da doença aumenta. E a interrupção do tratamento sem orientação médica pode favorecer a recorrência dessas crises.
“A taxa de recaída entre pacientes não tratados com lítio é quase 20 vezes maior do que entre aqueles que recebem o tratamento”, conta Silva. Por esse motivo, eventuais mudanças terapêuticas devem ocorrer apenas sob orientação médica.
Segurança depende do acompanhamento adequado
Apesar dos benefícios, o uso do lítio exige cuidados específicos. O medicamento possui uma faixa terapêutica estreita, o que significa que a diferença entre uma dose eficaz e uma dose potencialmente tóxica pode ser relativamente pequena.
Por isso, pacientes em tratamento precisam realizar acompanhamento periódico, por meio de um exame conhecido como litemia. “Nosso maior cuidado deve ser o monitoramento regular dos níveis sanguíneos do medicamento. Também é necessário acompanhar periodicamente a função renal e tireoidiana”, explica o médico.
Esse acompanhamento é importante porque fatores como desidratação, algumas doenças clínicas e interações com outros medicamentos podem alterar a concentração do lítio no organismo. Quando os níveis da substância ficam acima do recomendado, podem surgir sinais de intoxicação.
“Redução de reflexos, tremores, leve desequilíbrio, fraqueza, diarreia, náuseas e dificuldade de concentração. Em quadros mais graves, podem surgir vômitos, letargia, confusão mental, piora dos tremores e fala arrastada. São casos de emergência imediata”, alerta Silva.
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Combatendo estigmas
Apesar de décadas de utilização e eficácia comprovada, o lítio ainda é alvo de preconceitos e informações incorretas.
“Entre os principais preconceitos, estão a falsa ideia de que o lítio é uma medicação ‘antiga’ ou ultrapassada, de que necessariamente causa efeitos graves, ou de que seu uso significa que o paciente está em uma condição ‘mais séria’ ou incapacitante”, conta o psiquiatra.
Segundo ele, essas percepções podem criar resistência à busca por ajuda especializada e reforçar o estigma em torno dos transtornos mentais.
A principal mensagem é que a indicação deve sempre ser individualizada e acompanhada por profissionais capacitados.
“O lítio ainda é um dos tratamentos mais eficazes para o transtorno bipolar, especialmente na prevenção de novas crises, desde que seja utilizado com acompanhamento médico adequado e monitoramento periódico. Quando bem indicado e monitorado, seus benefícios podem comprovadamente melhorar a qualidade de vida de quem convive com a doença”, conclui Silva.




