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Pediatria

Whey e creatina na infância: criança pode tomar suplemento?

Influenciadores têm promovido whey protein e creatina para crianças, mas médicos e nutricionistas dizem que a prática não é recomendada na maioria dos casos

Vez ou outra, aparecem nas redes sociais influenciadores dizendo que oferecem suplementos para crianças, como whey protein (uma proteína derivada do soro do leite) e creatina, um composto naturalmente produzido pelo organismo que ajuda os músculos a gerarem energia durante atividades de alta intensidade. Mas será que essa prática é realmente segura e traz benefícios para os pequenos?

A resposta curta é: não. Médicos, nutricionistas e entidades de saúde não recomendam oferecer esses produtos para os pequenos, pois uma alimentação equilibrada já consegue fornecer os nutrientes necessários. Além disso, estudos mostram que o consumo excessivo de proteínas pode sobrecarregar os rins e o fígado.

“Na grande maioria dos casos, crianças saudáveis conseguem atingir suas necessidades proteicas apenas por meio da alimentação, sem necessidade de suplementos. Carnes, ovos, leite e derivados, além da combinação de leguminosas e cereais, costumam fornecer proteína suficiente para o crescimento e desenvolvimento.”, explica Amanda Figueiredo, nutricionista clínica pela Universidade de São Paulo (USP). 

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) vai na mesma linha. Em nota de alerta divulgada em maio deste ano, a entidade disse que “o uso de suplementos proteicos à base de whey protein e de creatina não é indicado para crianças saudáveis e não deve ser adotado de forma rotineira na adolescência”.

Ainda segundo a SBP, uma alimentação saudável, variada e baseada em alimentos in natura ou minimamente processados é suficiente para atender às necessidades nutricionais e promover a formação de hábitos alimentares adequados.

 

Quando o suplemento pode ser necessário

O uso de suplementos só é recomendado quando existe uma indicação clínica específica, segundo Tassiane Alvarenga, endocrinologista e metabologista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). As indicações são as seguintes:  

“Baixa ingestão proteica, seletividade alimentar importante, doenças crônicas, desnutrição, recuperação nutricional, dietas restritivas ou demandas esportivas específicas — sempre com pediatra, nutricionista e, quando necessário, endocrinologista”, detalha.

 

O que o excesso de proteína pode causar

Estudos citados pela SBP indicam que o consumo excessivo e prolongado de proteínas pode aumentar a sobrecarga sobre os rins e o fígado. Nos rins, por exemplo, a alta ingestão proteica eleva a produção de ureia e faz com que o órgão trabalhe mais para filtrar e eliminar substâncias do organismo. Em pessoas mais suscetíveis, isso pode aumentar o risco de lesões renais ao longo do tempo.

No fígado, o excesso de proteínas também exige um esforço maior para metabolizar os aminoácidos (os blocos das proteínas) e transformar a amônia produzida nesse processo em ureia. Na prática, isso significa que o organismo precisa trabalhar mais para processar quantidades de proteína acima do necessário.. 

Além disso, o excesso de proteínas pode provocar alterações metabólicas. Entre os possíveis efeitos estão mudanças na produção de hormônios ligados ao crescimento, como o IGF-1, e alterações no equilíbrio energético do organismo. 

Veja também: Proteínas em excesso fazem mal? Veja mitos, riscos e benefícios

 

Os impactos além dos rins e do fígado

Há consequências também no longo prazo. Segundo a nutricionista, o consumo excessivo de suplemento de proteína pode reduzir o apetite das crianças para outros alimentos, comprometendo a variedade da dieta e a ingestão de nutrientes essenciais para o crescimento. 

Outro risco mencionado é que o uso indiscriminado desses produtos pode criar a falsa impressão de que eles podem compensar uma alimentação inadequada. 

“Do ponto de vista nutricional, nenhum suplemento substitui os benefícios de uma dieta equilibrada, que fornece não apenas proteínas, mas também fibras, vitaminas, minerais e compostos bioativos essenciais para o crescimento e desenvolvimento infantil”, afirma Figueiredo.

 

O perigo de importar a lógica da suplementação para a infância

Basta fazer uma busca nas redes sociais para encontrar sugestões de uso de suplementos em crianças. Para Alvarenga, a normalização desse tipo de prática é motivo de preocupação. 

“Criança pequena não precisa viver em lógica de hipertrofia, performance e suplementação. O foco deve ser crescimento saudável, relação tranquila com comida, sono, movimento e desenvolvimento global”, destaca a médica. 

Para Figueiredo, as redes sociais têm grande influência na percepção dos pais sobre nutrição infantil, muitas vezes com informações simplificadas ou sem base científica, o que pode estimular modismos alimentares e o uso de suplementos sem indicação real.

Por outro lado, ela ressalta que também há conteúdo de qualidade capaz de contribuir para a educação alimentar quando produzido por profissionais qualificados. “O desafio é desenvolver senso crítico e buscar orientação de nutricionistas e fontes científicas confiáveis”, conclui. 

Veja também: Qual a quantidade ideal de proteínas diárias?

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