Como explicar a morte para as crianças?

O uso de recursos lúdicos e o diálogo sempre franco e aberto são algumas formas de como explicar a morte para as crianças. Saiba mais.

menino sentado em túmulo, com a mão no rosto. veja como explicar a morte para as crianças

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Publicado em: 21/12/2022

Revisado em: 16/05/2023

Em meio ao próprio sofrimento, os adultos também precisam estar atentos ao processo de luto infantil. Saiba como explicar a morte para as crianças.

 

Ana Paula Carneiro já era mãe de Camila, 5 anos, quando ficou grávida de Gabriela. A segunda gestação havia sido muito esperada por toda a família, principalmente por Camila, que ansiava pela chegada da irmãzinha. No entanto, no fim do gravidez, Ana Paula começou a apresentar complicações. O médico optou por manter a data prevista para o parto, mas houve o descolamento total da placenta, privando a recém-nascida de oxigenação. No dia 13 de janeiro de 2004, Gabriela nasceu com uma lesão cerebral que a manteria na UTI pelos próximos três anos e meio.

Para Camila, o início foi confuso. Entender que a tão aguardada caçula iria permanecer no hospital era impactante e exigia certa adaptação. Ana Paula e seu marido, Ednaldo, faziam questão de explicar tudo o que estava acontecendo, bem como levar Camila para brincar com a irmã nos horários de visita. 

“Eu ajudava a dar banho nela, gostava de dormir junto. Nunca deixava de levar meus desenhos e brinquedos. Para mim, ela ia ficar daquele jeitinho, mas ia ficar para sempre”, relata Camila, hoje com 25 anos. Na época, Gabriela precisava de cuidados constantes, como auxílio de respirador e alimentação por sonda.

Ana Paula e Ednaldo também achavam que Gabriela iria se recuperar e, quem sabe, até receber alta do hospital. Porém, a sua condição era muito grave e ela acabou não resistindo. Quando veio a falecer, o casal teve de lidar com a dor do luto ao mesmo tempo em que amparava Camila, ainda muito nova.

 

Como as crianças entendem a morte?

De acordo com Cristina Borsari, coordenadora de Psicologia do Sabará Hospital Infantil, em São Paulo, a compreensão das crianças sobre a morte depende da idade e do contexto familiar.

  • Até os 3 anos: a morte é entendida como a ausência ou a falta de alguém, algo que pode ser reversível.
  • Dos 3 aos 7 anos: a morte ainda é vista como a ausência de alguém, mas que não volta mais;
  • A partir dos 7 anos: a morte começa a ter o seu significado de finitude, algo que aconteceu, é inevitável e irreversível.

“Até os 7 anos, a criança ainda vive em um mundo de fantasia. A vivência do luto é mais fantasiosa. Mas conforme ela vai avançando no desenvolvimento infantil, a socialização com outras pessoas além do núcleo familiar traz o assunto à tona. Começa a se conversar sobre isso quando perde o animalzinho de estimação ou quando um amiguinho está triste porque perdeu um parente”, explica a psicóloga.

Além disso, há a influência do histórico da família. Se ela já viveu alguns lutos, a criança tem uma percepção sobre a morte. Se ainda não experimentou nenhuma perda significativa, o entendimento sobre a finitude pode mudar.

 

Como conversar com a criança sobre a morte?

“Quando a Gabriela faleceu, eu fiquei bem mal. A gente sabia que ia acontecer, mas a gente não espera. Eu pensei: ‘O que eu faço? Como eu faço?’. Sentei com a Camila, expliquei, conversei, perguntei se ela gostaria de ir comigo para o hospital”, conta Ana Paula.

Segundo Cristina, é fundamental dialogar sobre a perda e não tentar proteger a criança do que está acontecendo na família. É importante que ela sinta a dor do luto e tenha um espaço aberto para se expressar. 

“Converse de forma aberta, franca. Pergunte o que ela está pensando ou sentindo. Uma boa forma de puxar o assunto pode ser contando as próprias experiências. Por exemplo: ‘Quando a mamãe era pequena, meu cachorrinho morreu. Eu chorei muito, eu sofri. Mas guardei as memórias dele’. Quando você expressa o seu sentimento, a criança começa a elaborar que também pode contar sobre a dor dela”, aconselha a psicóloga.

Nem sempre ela vai conseguir colocar isso em palavras, mas poderá demonstrar através de alterações no comportamento, como maior irritabilidade ou dificuldade para dormir. Os pais e a família precisam entender o momento que ela está vivendo e permitir que ela internalize esse sofrimento.

Veja também: O que é preciso fazer quando um familiar morre?

 

A criança deve ir ao velório? 

Em relação aos rituais de passagem, o diálogo também é fundamental. A família deve ponderar qual é a importância do velório e do funeral e explicar para a criança como funcionam antes de perguntar se ela gostaria de ir. Ao ter uma ideia do que irá encontrar, ela ficará mais à vontade para decidir.

“O velório permite vivenciar a perda, despedir-se, mostrar à criança que a morte é algo concreto. Mas depende muito das crenças familiares. Se é importante que a criança esteja presente, mas há o medo de que ela fique traumatizada, é possível preservá-la de ver o ente querido no caixão ou levá-la a uma antessala em que ela não veja e ainda assim participe”, esclarece Cristina.

 

Cuidado com as metáforas

Nesse momento de compreensão, muitos pais fazem uso de historinhas ou metáforas que remetem à morte, como a de que a pessoa virou uma estrelinha ou foi viajar. Utilizar recursos lúdicos não é um problema e resgata aspectos da cultura familiar, o que ajuda a entrar no universo da criança. No entanto, é preciso cautela:

“Quando você fala que alguém que você ama foi viajar, você cria a expectativa do retorno. Então, acaba mexendo com um vínculo de segurança e confiança com o seu filho”, alerta Cristina.

Se o ente querido já estiver doente, é possível ir preparando o entendimento sobre a finitude. Uma dica é utilizar a metáfora das plantinhas: você mostra um vaso de flores que tem em casa e explica que, assim como as plantas, os seres vivos nascem, crescem, vão “perdendo suas folhas” e morrem. 

“Claro que tem o sentimento, a dor da perda, que vamos precisar elaborar juntos. Mas é um caminho para mostrar que a morte faz parte do ciclo da vida”, pontua a psicóloga.

 

Como os pais podem se preparar para essa conversa?

Durante o período de internação de Gabriela, Ana Paula decidiu procurar o acompanhamento de uma psicóloga para toda a família. Quando a caçula veio a falecer, ela foi a primeira pessoa para quem Ana Paula ligou pedindo ajuda para contar a notícia para Camila. Esse apoio foi fundamental para as duas.

“Enquanto pais, a gente precisa identificar quais são os nossos limites. Uma vez que eles reconhecem a dificuldade de conversar com o filho sobre o luto, eles podem, sim, pedir ajuda de um psicólogo e, em parceria, construir estratégias para que isso não se torne um tabu dentro de casa e para que o sentimento de culpa ou fracasso não venha à tona”, tranquiliza Cristina.

 

Se não houver perdas na família, é preciso falar sobre a morte com as crianças?

Já no caso de famílias que não passaram por nenhum falecimento próximo, a conduta muda um pouco. Via de regra, não é preciso falar sobre assuntos pelos quais a criança ainda não tenha demonstrado curiosidade. Os pais ou responsáveis podem ir no tempo dela, respeitando-a como protagonista de sua história, mas sem protegê-la.

“Se vocês assistem a um filme e algum personagem morre, é importante usar o momento para falar sobre o assunto. Hoje, existem várias obras infantis que trazem esse sentimento”, exemplifica Cristina.

O luto não é só a perda de alguém que faleceu, mas também abrange a perda de um emprego, de um animal de estimação ou de uma mudança de cidade. Entender esse sentimento é parte importante da formação psicoemocional infantil. 

“Entre os 5 e os 7 anos, já é o momento de começar a falar sobre o tema, até para trabalhar a autoestima e a ansiedade que a criança pode vir a ter”, recomenda. Considerando que atualmente as crianças são bombardeadas por informações nas redes sociais, estabelecer esse diálogo é uma forma de criar um vínculo afetivo para que o filho se abra sobre o assunto.

Veja também: Luto pode ser ainda mais difícil em tempos de pandemia

 

Como a criança expressa o luto?

A partir dessa conversa, quando acontecer uma perda próxima, os pais conseguem acompanhar melhor a forma com a qual a criança irá lidar com toda a situação. De forma geral, o luto pode ser dividido em quatro fases:

  1. Revolta: o enlutado se pergunta por que aquilo está acontecendo com ele e pode se virar contra as próprias crenças ou religiosidade;
  2. Barganha: o enlutado tenta fazer negociações irreais para trazer o ente querido de volta;
  3. Depressão: a mais marcante é quando o enlutado rememora a pessoa que partiu e tende a se isolar em sua tristeza;
  4. Aceitação: é a fase em que o enlutado se permite sofrer e a dor vira uma saudade, pois ele aceita que o ente querido não vai mais voltar.

Nas crianças, é mais difícil diferenciar cada etapa. A fase depressiva costuma ficar mais em evidência, pois ela muda o seu comportamento: pode ficar mais isolada ou querendo contato o tempo todo, além de regredir em marcos já conquistados, como pedir a chupeta e a mamadeira de novo. No entanto, Cristina ressalta que o luto infantil é muito subjetivo e depende dos recursos emocionais que a criança já desenvolveu.

No dia seguinte à morte de Gabriela, Camila escolheu algumas roupas da irmã, vestiu e foi brincar. Por sua condição, Gabriela era grande para a idade e as roupas serviam nas duas. A reação de Ana Paula foi de choque, mas depois compreendeu: “Era uma forma dela sentir a irmã mais próxima”, afirma. 

 

Quando procurar ajuda?

Por outro lado, ainda que cada criança expresse o luto à sua maneira, é preciso estar atento para a necessidade de um apoio profissional. Em algumas situações, apenas o acolhimento dos pais não é o suficiente. Os sinais de alerta são:

  • Prejuízo social: a criança começa a se isolar e a ficar apática, por exemplo, evita ir às festas de aniversário dos amigos porque está triste;
  • Mudança no ciclo do sono: a criança começa a dormir demais ou a ficar acordada durante a noite;
  • Regressão no comportamento: ela passa a retomar hábitos já abandonados de quando era menor, como chupar chupeta;
  • Queda de produção na escola: ela também começa a ficar desmotivada com as atividades acadêmicas e o desempenho cai;
  • Alteração no comportamento: a criança tende a ficar mais agressiva ou quieta.

“A gente espera que a criança elabore o luto mais ou menos no tempo da família. Se os parentes já estão tocando a vida e ela ainda apresenta alguma dificuldade, é porque precisa de ajuda profissional. Aí pode ser um psicólogo, um psiquiatra, um médico pediatra ou um psicopedagogo”, indica Cristina.

Enquanto Gabriela estava internada, Camila também fez terapia. Ela se lembra de ser um ambiente em que se sentia à vontade e podia demonstrar as suas fraquezas, as quais tentava esconder dos pais para ajudá-los a enfrentar a situação. “Isso me auxiliou a lidar com o luto. A entender, digerir e refletir, até mesmo depois de adolescente”, afirma, lembrando também o apoio de amigos e familiares.

O tempo da criança também é algo precioso nesse contexto. A depender do vínculo que ela havia estabelecido com a pessoa falecida e os próprios recursos emocionais, a duração do luto varia e não há uma regra. O que ela precisa é continuar seu desenvolvimento físico, motor e emocional mesmo com a ausência da pessoa falecida.

“Sem dúvidas, o luto pela minha irmã deixou uma marca na minha vida. Foi tudo muito cedo, eu era muito nova. É duro você imaginar uma criança tendo que passar por tudo isso. Hoje, ainda dói, ainda sinto falta, mas é um processo. Dentro das minhas crenças, eu entendo que ela cumpriu sua missão. A Gabriela foi fundamental na minha vida”, diz Camila, emocionada.

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