Quando a gravidez é planejada pelo casal, após o momento da confirmação de que a mãe realmente está esperando um bebê, na grande maioria das vezes vem a fase de euforia. Com ela, também surgem as indagações típicas dessa fase: será menino ou menina? O bebê vai puxar ao pai ou terá os olhos iguais aos do avô? Como vai ser o rostinho dele?

Ninguém espera que o bebê tão planejado nasça prematuro ou com uma doença grave que possivelmente deixará sequelas, como uma cardiopatia ou insuficiência respiratória, ou ainda algum problema de ordem neurológica.

No Brasil não são raros 0s casos de bebês que nascem de forma prematura – 12% dos partos do país são de bebês nascidos antes das 37 semanas de gestação, segundo pesquisa capitaneada pela UFPel (Universidade Federal de Pelotas) e divulgada em 2013.

Quais as implicações, portanto, que um parto prematuro ou a notícia de uma doença na fase inicial da vida teria no vínculo mãe-bebê e como os pais lidam quando ouvem o diagnóstico do médico?

Para a psicóloga e psicanalista Ethel Cukierkorn Battikha, que desenvolveu uma dissertação de mestrado sobre o assunto e que ministrou recentemente uma palestra sobre o tema no HCor (Hospital do Coração), o nascimento de um bebê tão pequeno, tão diferente do bebê gordinho e forte, que consegue respirar sozinho, implica – inconscientemente – o luto pela perda do bebê desejado.

“A notícia mobiliza a angústia e é traumática. O nascimento de um bebê com problemas, frágil aos olhos da mãe, de modo enfático sinaliza a morte daquele que por princípio representa a marca da continuidade da vida, desorganizando as referências e mobilizando intensos afetos e ideias depressivas”, explica ela.

A psicanalista, que também estudou sobre a formação do médico neonatologista e os paradigmas implicados na relação com os pais dos bebês que precisam de internação na UTI neonatal para sua tese de doutorado, percebeu que frequentemente os médicos dizem que após a comunicação de um diagnóstico ou prognóstico grave, a mãe muitas vezes não consegue absorver ou assimilar a gravidade da informação e passa a perguntas pouco relevantes sobre a criança, como a cor do cabelo ou o peso. Outra questão recorrente é a necessidade de repetirem inúmeras vezes a mesma informação para os pais, como se fosse a primeira vez.

“Há angústia e sofrimento tanto para quem escuta como para quem comunica a notícia. Podemos, sim, pensar que se trata do uso de mecanismos defensivos, necessários tanto para que os pais não desmoronem como para que possam constituir o vínculo com o filho, bem como podemos supor tratar-se, também, do enlace amoroso, pois qualquer mãe faz perguntas acerca do peso, do tamanho do seu bebê ao nascer”, esclarece.

Para que a comunicação se estabeleça sem ruídos, é importante que os médicos evitem o uso de termos muito técnicos, perguntem aos pais sobre o que sabem a respeito da doença, se já ouviram falar dela e quais dados gostariam de saber. “Mas a ideia é não sobrecarregá-los com informações excessivas, que não poderão ser processadas no momento. O que os pais escutam, bem como a maneira como se dá a comunicação médica são de importância crucial e têm um grande impacto na constituição do vínculo inicial mãe-bebê.”

Por isso a necessidade de intervenção psicológica precoce com os pais durante o período de permanência da criança na UTI. Esse cuidado deve ser designado para minimizar o altíssimo estresse e o impacto das doenças e seu tratamento.

“É importante trabalhar com o profissional em formação os modos de comunicar um diagnóstico que pode ser traumático e as possibilidades iniciais de elaboração, de metabolização da notícia, assim como as questões implicadas na comunicação do diagnóstico e as angústias suscitadas nos próprios médicos”, finaliza Ethel.