Cresce o número de crianças com miopia

Aumento de casos de miopia preocupa pais e especialistas. Saiba os motivos.

Mariana Varella é editora-chefe do Portal Drauzio Varella. Jornalista de saúde, é formada em Ciências Sociais e pós-graduanda na Faculdade de Saúde Pública da USP. Interessa-se por saúde pública e saúde da mulher. Prêmio Especialistas Saúde 2021 e Prêmio Einstein Colunista +Admirados da Imprensa de Saúde e Bem-Estar 2021 @marivarella

oftalmologista examina olho de menino. aumento de casos de miopia preocupa pais e especialistas

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Publicado em: 10 de maio de 2022

Revisado em: 10 de maio de 2022

Aumento de casos de miopia preocupa pais e especialistas. Saiba os motivos.

 

Você já teve a sensação de que mais crianças estão usando óculos do que há dez, vinte anos e se perguntou o motivo?

Embora 34% da população brasileira nunca tenha ido a um oftalmologista, segundo pesquisa do Ibope de 2019, hoje é mais comum que pediatras encaminhem as crianças para exames oftalmológicos de rotina do que há algumas décadas, o que aumentou o número de crianças com diagnóstico precoce de problemas de visão e, consequentemente, óculos.

Porém, pode haver outro motivo: estudos mostram que a taxa de crianças com miopia vem crescendo no mundo todo.

A miopia,  distúrbio visual caracterizado por um globo ocular mais “longo”, o que provoca a formação da imagem antes que a luz chegue até a retina, tem fatores genéticos e ambientais. Filhos de pai ou mãe míopes têm risco maior de desenvolver o problema.

No entanto, a causa do aumento parece ser ambiental e relacionada a mudanças no estilo de vida moderno.

O problema é tão preocupante que a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que até 2050 metade da população mundial será míope. Mas o que tem levado a esse crescimento? É possível freá-lo?

 

Luz solar

A incidência da miopia vem aumentando no mundo todo, em especial nos países do leste asiático, como Singapura, Taiwan e Coreia do Sul. Não à toa, boa parte dos estudos sobre o aumento da taxa de casos de miopia foram conduzidos nesses países.

Estudos revelam que a prevalência da miopia nos países do leste asiático é de 80%-90%, enquanto a taxa nos países ocidentais é de pouco menos de 30%.

Essa diferença é interpretada pelos pesquisadores como resultado da cultura dos países asiáticos, cujas crianças passam longos períodos em atividades de estudo, em ambientes internos.

Vários estudos têm mostrado que a diminuição da exposição à luz natural é um fator importante para o crescimento dos casos de miopia. Apesar das diferenças culturais entre países ocidentais e orientais, o estilo de vida das crianças de várias cidades se assemelha.

Além dos períodos mai prolongados na escola, a falta de segurança e de um ambiente mais convidativo para a realização de atividades ao ar livre faz com que as crianças passem mais tempo em ambientes fechados. Soma-se a isso o uso cada vez mais frequente de dispositivos eletrônicos que também afastam os jovens de tarefas em locais abertos.

“Acredita-se que a exposição à luz solar, não ao sol direto, mas à luz do dia estimule a produção da dopamina, um neurotransmissor ligado aos mecanismo e recompensa e prazer e que promove o crescimento saudável do olho”, explica o pediatra e sanitarista dr. Daniel Becker.

Além da falta de luz solar, outro fator que parece estar relacionado ao aumento de casos de miopia é a falta de estímulo da visão à distância. “A falta de alternância da fixação do foco do olho em pequenas e longas distâncias parece ser prejudicial”, comenta o dr. Becker.

“Olhar muito de perto, como quando estamos diante do celular, é ruim para o desenvolvimento dos olhos. O estudo em si não é um problema, pode estudar várias horas por dia, mas é preciso intercalar com a exposição ao ar livre, à luz natural”, afirma a dra. Andréa Zin, oftalmologista pediátrica do Instituto Brasileiro de Oftalmologia (Ibol), no Rio de Janeiro.

Assim, ambientes ao ar livre, além de propiciarem a exposição à luz natural também permitem que exercitemos a visão mais ampla, para o horizonte.

Veja também: Crianças, adolescentes e o excesso de telas

 

Uso de telas

Embora ainda não seja possível estabelecer uma relação de causa e efeito entre o uso excessivo de telas e o aumento de casos de miopia, há estudos mostrando uma associação entre ambos. Uma meta-análise publicada no “The Lancet” sugere que a exposição a aparelhos eletrônicos pode estar associada à miopia.

De toda forma, especialistas e organizações médicas do mundo todo têm alertado para os danos que o uso excessivo desses aparelhos pode causar à saúde e à socialização das crianças, em especial as pequenas.

Limitar seu uso, portanto, é recomendado pela OMS e outras entidades médicas brasileiras e internacionais.

 

Pandemia de covid-19

“Minha filha de 12 anos começou a ter dificuldade de enxergar a televisão durante a pandemia. Três anos antes, eu a havia levado ao oculista, para um exame de rotina, e ela não tinha nenhum problema de visão. Não posso afirmar que a pandemia foi responsável, mas minha filha desenvolveu miopia durante o isolamento”, afirma Rosa*, publicitária e mãe de 2 filhos.

Um artigo publicado no periódico “Jama Ophalmology” afirma que 2020 foi o “ano da miopia de quarentena”. O problema não tem nada a ver com o vírus da covid-19, ao menos não diretamente, mas com o confinamento rígido imposto, em especial nos países asiáticos.

O artigo cita um estudo realizado por pesquisadores norte-americanos e chineses que revelou um aumento de 1.4 a 3 vezes na prevalência de miopia entre crianças de 6 a 8 anos em 2020, comparado com cinco anos anteriores.

Segundo os autores, o problema não foi observado em crianças maiores, tornando pouco possível que tenha sido causado pelo aumento do uso de telas, já que crianças mais velhas passaram mais tempo em atividades online. A causa mais provável para o aumento, de acordo com os pesquisadores, foi a diminuição do tempo de exposição à luz solar, fator já demonstrado como relacionado à miopia.

Outro estudo, conduzido em Hong Kong, também mostrou crescimento no número de casos de miopia durante a pandemia. De acordo com os pesquisadores, houve aumento significativo no tempo de exposição a telas e diminuição do período de exposição à luz natural entre crianças, no mesmo período.

 

Prevenção

A miopia pode aumentar o risco de descolamento da retina, catarata, glaucoma e, em casos mais graves, cegueira. As complicações associadas ao distúrbio representam um alto custo social e econômico, em especial em países mais pobres.

Pesquisadores afirmam que intervenções que visem a aumentar a permanência de crianças em ambientes com luz natural podem reduzir a incidência de miopia em aproximadamente 50% e diminuir em 32,9% a progressão do distúrbio em crianças já míopes. “A luz natural ajuda a controlar a progressão da miopia”, explica a dra. Zin.

Um estudo em duas escolas de Taiwan mostrou a importância da luz na redução de casos de miopia. Alunos de uma das escola foram encorajados a passara 80 minutos diários ao ar livre, enquanto os estudantes da outra escola da região não faziam atividades ao ar livre. Após um ano, 8% das crianças da primeira escola foram diagnoticadas com miopia, ante18% da segunda escola.

Segundo os pesquisadores, 3 horas diárias ajudam a reduzir o risco de desenvolver miopia. Na Austrália, país que tem índices menores de jovens com miopia: 4,5% dos jovens de 0 a 14 anos, de acordo com o sistema de saúde australiano.

Veja também: DrauzioCast #150 | Distúrbios de visão: miopia, astigmatismo, hipermetropia e presbiopia

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