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Infectologia

Mosquitos inimigos

Os mosquitos são os animais mais perigosos da Terra. Com as alterações climáticas, estima-se que se espalhem com mais rapidez. Leia no artigo do dr. Drauzio

mosquito em dedo de ser humano

Anos atrás, gravei um programa para o Fantástico, da TV Globo, entre os ribeirinhos do Alto Rio Negro, no Amazonas. Quando lhes perguntei qual era o animal mais perigoso para os seres humanos, citaram a cobra, a onça, as piranhas, os jacarés e até leões e tigres. Ficaram surpresos quando lhes disse que era o mosquito.

Os mosquitos são animais bem-sucedidos do ponto de vista evolutivo. Estão na Terra há muito mais tempo do que nós. Estima-se que as primeiras espécies da família Culicidae surgiram entre 200 milhões e 230 milhões de anos atrás. Quando aquele meteoro caiu na Península de Yucatán, no México, há 66 milhões de anos, extinguindo os dinossauros, os mosquitos sobreviveram.

Veja também: Mosquitos autolimitantes: conheça os insetos modificados para combater a dengue

Nos últimos 50 milhões de anos, a família se diversificou, dando origem aos gêneros Aedes, Anopheles e Culex. Nesses gêneros, o metabolismo energético das fêmeas e dos machos depende da ingestão de carboidratos retirados das flores, da seiva e dos frutos. As fêmeas, no entanto, necessitam sugar sangue para obter as proteínas necessárias à produção dos ovos que darão origem às novas gerações.

Esse capricho biológico é que os torna os animais mais perigosos da Terra. Ao sugar o sangue de vários indivíduos, as fêmeas podem infectar-se por microrganismos presentes na corrente sanguínea, que serão transmitidos por elas de uma pessoa para outra.

O deslocamento de populações humanas tem sido responsável pela disseminação dos mosquitos e das doenças transmitidas por eles.

O exemplo clássico é o do infame tráfico de africanos escravizados para as Américas, com a introdução de doenças que não existiam entre os povos originais desses continentes. É o caso do Aedes aegipty transportado nos porões dos navios, que causou epidemias de febre amarela nos países das três Américas, a partir do século 16.

A presença do mesmo Aedes aegipty levou a malária para várias partes do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), depois de leve declínio, o número de doentes com malária voltou a crescer a partir de 2015. Em 2023, foram 273 milhões de casos; no ano seguinte, 282 milhões, com 610 mil mortes.

A dengue atingiu o recorde de 14 milhões de casos relatados à OMS, e 12 mil mortes. A doença espalhou-se pelas Américas e atingiu áreas que se achavam livres dela, na Europa, na Ásia e na Austrália.

Nos últimos 20 anos, a chikungunya emergiu em mais de cem países, causando surtos epidêmicos na China, Itália e França. No ano passado, provocou 46 mortes em Cuba.

Entre junho de 2025 e abril de 2026, um parente muito próximo do Aedes ­aegipty, o Aedes albopictus invadiu várias áreas da Europa, entre as quais Portugal, França e Grécia, transmitindo dengue e chikungunya para populações até então virgens dessas arboviroses.

O Aedes aegipty foi o que mais se disseminou pelo mundo. Hoje, ele está presente em 150 países. Conseguiu instalar-se até em partes da América do Sul com invernos mais rigorosos, a exemplo do Sul do Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai. Hoje há casos bem documentados em altitudes elevadas.

É um fenômeno novo, porque, para se reproduzir, o Aedes aegipty precisa de temperaturas altas e chuvas. Essas áreas da América do Sul com temperaturas mais baixas em boa parte do ano dificultavam a proliferação de criadouros. Tais condições, no entanto, estão mudando por causa do aquecimento global, que oferece ambientes mais favoráveis à sobrevivência das larvas, nas coleções de águas paradas.

Além das mudanças climáticas, o processo de urbanização, as características das moradias em áreas com adensamento populacional, a destruição do ambiente, as modificações ecológicas e a instabilidade social favorecem a disseminação dos mosquitos.

Contribuem também a intensificação dos tráfegos aéreo e terrestre, do comércio internacional de produtos e a manipulação dos recursos hídricos por meio da irrigação. Mosquitos que sempre dependeram das próprias asas para se deslocar, hoje viajam de avião, trens, carros e até transatlânticos.

Uma revisão recente mostrou que, do ano 2000 a esta data, 12 espécies de mosquitos-vetores de doenças invadiram novas regiões das Américas, Ásia, Europa e Oceania. A partir dos dados numéricos, os autores concluíram que “os mosquitos estão se espalhando rapidamente pelo mundo”.

As alterações climáticas e as condições sociais têm expandido os territórios desses nossos inimigos. O antiquado rótulo de doenças tropicais deve ser esquecido.

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