Para garantir a saúde da mãe e do bebê, o ideal é que a mulher que queira ter filho procure um médico ginecologista antes de começar a tentar engravidar, para que ela passe por uma avaliação pré-concepcional e realize os exames pré-natais.

 

Segundo o art. 226, §7º da Constituição Federal, o planejamento familiar é livre decisão do casal. Portanto, toda mulher tem direito de planejar se quer ser mãe e, em caso afirmativo, quantos filhos deseja ter e qual o momento mais adequado para isso.

Assim que decide engravidar, a mulher começa a preocupar-se com a gravidez e saúde do futuro bebê. Será que conseguirei engravidar com facilidade ou terei alguma condição médica que dificultará ou mesmo impedirá a concepção? Será que a gravidez transcorrerá bem? E o bebê, nascerá saudável?

Para garantir a saúde da mãe e do bebê, o ideal é que a mulher que queira ter filho procure um médico ginecologista antes mesmo de começar a tentar engravidar, para que ela passe por uma avaliação pré-concepcional que tem como objetivo identificar possíveis fatores de risco ou doenças que podem afetar o curso normal da gestação.

 

Consulta pré-concepcional

 

“A realização de uma consulta pré-concepcional com um especialista para identificação de riscos e orientações relevantes a cada mulher é um excelente início para uma gravidez saudável”, reforça a dra. Renata Lopes Ribeiro, médica obstetra do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) e membro da equipe de Medicina Fetal do Fleury

Nessa avaliação, o médico analisará o histórico clínico, ginecológico e obstétrico da paciente, além de realizar um exame físico e solicitar exames laboratoriais.

O histórico clínico é feito com o intuito de identificar e tratar possíveis doenças prévias, como diabetes e hipertensão arterial, que podem afetar o desenvolvimento do bebê e a saúde da mãe, além de reconhecer hábitos cujos efeitos adversos podem ser prejudiciais à gravidez, como tabagismo e uso excessivo de álcool.

O histórico ginecológico e obstétrico, por sua vez, serve para verificar a ocorrência de gestações anteriores, intervalo entre elas, partos e possíveis intercorrências, como abortamento e pré-eclâmpsia.

No exame físico, são avaliadas a pressão arterial, o peso e a altura da paciente, para que ela recebe orientação nutricional adequada e informações sobre hábitos saudáveis que devem ser cultivados, como manter uma atividade física regular.

“Nessa consulta pré-concepcional, aconselhamos também o uso de ácido fólico por 60 a 90 dias antes da concepção, para a prevenção de anomalia congênita do tubo neural (a dose dessa vitamina vai depender se houve ou não antecedente desse tipo de má-formação)”, explica a dra. Ribeiro.

Além disso, os médicos em geral solicitam exames laboratoriais gerais como hemograma, glicemia e função da tireoide, além das seguintes sorologias infecciosas: HIV, hepatites B e C, rubéola e sífilis.(Veja a lista completa de exames por período no fim da matéria.)

No caso da rubéola e da hepatite B, se a sorologia vier negativa, há indicação de imunização (vacina) prévia à gravidez. Na presença do teste negativo de HIV, hepatites B e C e sífilis, a paciente deve ser orientada sobre os cuidados preventivos. Na vigência de testes positivos, ela deve ser esclarecida acerca dos tratamentos disponíveis para reduzir o risco de transmissão vertical (para o recém nascido), além de aconselhada sobre a importância do diagnóstico e tratamento do parceiro.

 

 Veja também: Enigma da gravidez

Exames pré-natais no primeiro trimestre

 

Contudo,  para muitas mulheres a gravidez acontece sem que tenha sido planejada ou antes que a futura mãe tenha ido ao médico. Nesse caso, quando a gestante deve começar o pré-natal?

O ideal, segundo especialistas, é que, nesse caso, a mulher vá ao ginecologista assim que a gravidez for confirmada.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de consultas durante o pré-natal deve ser igual ou superior a seis, para que haja acompanhamento adequado de cada fase da gestação.

Durante a primeira consulta são pedidos exames pré-natais como tipagem sanguínea, fator Rh e Coombs indireto (em caso de Rh negativo), para identificar o risco de incompatibilidade do sistema Rh do sangue materno e fetal (quando o fator Rh da mãe é negativo e o do feto, positivo). Além disso, são pedidas sorologia para doenças como rubéola, HIV, toxoplasmose, hepatites B e C e citomegalovírus.

Nessa fase da gravidez os médicos também costumam solicitar exame de urina e de fezes e de secreção vaginal, se houver indicação clínica.

“Além desses exames, o médico deve solicitar uma ultrassonografia obstétrica inicial para confirmar a data da gestação, se o embrião está se desenvolvendo no lugar correto dentro do útero, e se a gravidez é única ou de gêmeos”, esclarece a dra. Ribeiro.

Entre 11 semanas e 3 dias a 13 semanas e 6 dias está indicada a ultrassonografia morfológica de primeiro trimestre, exame de imagem mais importante para estabelecer o risco de o feto ter síndrome cromossômica, representada principalmente pela síndrome de Down (trissomia do cromossomo 21).

Exames pré-natais no segundo trimestre

 

Esse período é considerado por muitas mulheres o mais tranquilo da gravidez, pois os sintomas iniciais como enjoo e mal-estar já diminuíram ou passaram e o feto ainda não ocupa muito espaço na cavidade abdominal materna.

Em geral, nessa fase é feito, nas pacientes com glicemia de jejum normal verificada em avaliação prévia, o teste de tolerância oral a glicose 75 mg, para diagnóstico de diabetes gestacional. É recomendado que seja realizado entre 24 e 28 semanas.

[A gravidez de risco ocorre] quando existem doenças maternas prévias à gestação, ou antecedente de intercorrência em gestação anterior ou condições obstétricas de risco vigentes na gestação atual

Também é no segundo trimestre (entre 20 e 24 semanas) que as grávidas costumam descobrir o sexo do feto, ao realizar a  ultrassonografia morfológica do segundo trimestre, exame feito para identificar má-formações fetais estruturais , como por exemplo fenda labial e anomalias congênitas cardíacas.

 

Exames pré-natais no terceiro semestre

 

Nessa fase, repetem-se o hemograma e algumas sorologias, como para sífilis, HIV, hepatites B e C e toxoplasmose, se as anteriores forem negativas. Também se realiza a pesquisa da bactéria estreptococo do grupo B (entre 35 e 37 semanas), que pode ser transmitida para o bebê durante o parto normal.

 

Gravidez de risco

 

“Cerca de aproximadamente 10% das gestações cursam com critérios de risco, que aumentam o risco de intercorrências para o feto e para a mãe. Esse cenário acontece quando existem doenças maternas prévias à gestação, ou antecedente de intercorrência em gestação anterior ou condições obstétricas de risco vigentes na gestação atual”, informa a dra. Ribeiro.

São inúmeras as situações possíveis, e cada uma em particular requer exames adicionais pertinentes. Uma das doenças maternas prévias que exigem mais atenção médica é a hipertensão arterial crônica. A gestante hipertensa deve realizar outros exames além dos rotineiros do pré-natal, tanto para o auxílio da avaliação clínica da hipertensão e função renal da paciente, quanto para evitar ou diagnosticar a pré-eclâmpsia, uma das principais causas de morte materna no país.

Gravidezes consideradas de risco devem ser acompanhadas com mais rigor, o que pode incluir consultas e exames pré-natais adicionais.

“A realização de uma consulta pré-concepcional com um especialista para identificar riscos e receber orientações relevantes de forma individualizada é um excelente início para uma gravidez saudável”, finaliza a obstetra.

 

Exames pré-natais recomendados de acordo com o período da gestação

 

Pré-concepção:

 

Hemograma;

Glicemia;

Função da tireoide;

Sorologias infecciosas para HIV, hepatites B e C, rubéola e sífilis

 

Primeiro trimestre:

 

Tipagem sanguínea e fator Rh;

Coombs indireto (se a mãe for Rh negativo);

Glicemia em jejum;

Dosagem de TSH e T4 livre;

Sorologias infecciosas para  sífilis, rubéola, citomegalovírus (somente para grupo de risco), HIV, toxoplasmose IgM e IgG, hepatite B (HbsAg) e C;

Urocultura + urina tipo I;

Citopatológico de colo de útero (papanicolau), se for necessário;

Exame da secreção vaginal (se houver indicação clínica);

Parasitológico de fezes (se houver indicação clínica);

Ultrassonografia obstétrica inicial;

Ultrassonografia morfológica de primeiro trimestre (avalia o risco de algumas síndromes cromossômicas), entre 11 semanas e 3 dias a 13 semanas e 6 dias.

 

Segundo trimestre:

 

Teste de tolerância oral a glicose 75 mg, empacientes com glicemia de jejum normal em avaliação prévia, para diagnóstico de diabetes gestacional (recomendado entre 24 a 28 semanas);

Ultrassonografia morfológica do segundo trimestre, feita entre 20 e 24 semanas com o intuito de identificar má-formações fetais estruturais, como por exemplo fenda labial e anomalias congênitas cardíacas. Nessa fase da gestação, já é possível determinar o sexo do feto.

 

Terceiro trimestre:

 

Hemograma;

Sorologias para  sífilis, HIV, toxoplasmose (se permanever negativa) e  hepatites B e C;

Pesquisa do estreptococo do grupo B (entre 35 e 37 semanas);

Ultrassonografia obstétrica para avaliação do crescimento fetal (entre 34 e 37 semanas).

 

 

Agradecimento especial: Dra. Renata Lopes Ribeiro, médica obstetra do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) e membro da equipe de Medicina Fetal do Fleury.