A revista científica “Lancet”  publicou no final do ano passado uma lista dos eventos mais relevantes para a Medicina no ano de 2014. Alguns receberam mais atenção dos meios de comunicação, mas todos foram importantes para o presente e alguns têm implicações para o futuro.

Discutirei aqui três deles:

Crise do Ebola:

Em 2014, foi registrada a mais grave epidemia de doença pelo vírus Ebola. Guiné, Libéria e Serra Leoa foram os países mais afetados. No fim de dezembro de 2014, foram registrados mais de 18 mil casos (e 6.500 mortes) da doença. A crise foi tão grave que esforços vêm sendo feitos para o desenvolvimento de vacinas e antivirais, além de outros tratamentos experimentais.  Ficou evidente, também, que a letalidade está associada às condições insatisfatórias dos sistemas de saúde dos países afetados. Há falta de recursos humanos, econômicos e gestão mais eficaz. Muitas doações não conseguiram chegar aos seus destinos ou foram inadequadas para atender os necessitados. O atendimento médico que alguns voluntários europeus ou norte-americanos que tiveram contato com o vírus receberam em seus países de origem mostrou, de maneira inequívoca, a importância da infraestrutura adequada para lidar com esse tipo de epidemia.

 

Combate à resistência aos antibióticos:

No ano passado, iniciativas dos governos britânico e norte-americano trouxeram para o centro de debate a adoção de medidas para reduzirmos a resistência aos antibióticos. Além de promover pesquisas para  investigar novas drogas, essas iniciativas também promovem a busca por uma rápida identificação de bactérias resistentes e conscientização dos profissionais de saúde sobre os efeitos deletérios do uso indiscriminado de antibióticos. E, para não pensarmos que esse assunto está muito distante de nós, vale lembrar que pesquisadores da Fiocruz encontraram bactérias superresistentes na Baía de Guanabara (RJ), onde serão disputadas as competições de vela dos próximos Jogos Olímpicos.

Veja também: Descobertas da década

 

Transplante de sucesso: 

Em 2014 nasceu a primeira criança concebida por uma mulher que recebeu transplante de útero. A mãe,  de 35 anos,  nasceu sem o útero por causa de uma doença congênita (Sindrome de Rokitansky, caracterizada por ausência ou má-formação do útero) e recebeu o útero de uma doadora saudável de 61 anos. O embrião foi implantado após uma fertilização in vitro e a gestação ocorreu sem maiores complicações. Os pesquisadores suecos que conduziram os procedimentos planejam retirar o útero da mãe para reduzir as possíveis complicações da imunossupressão por longo prazo.

Apesar de ser um feito realmente admirável, esse evento leva a discussões sobre qual o limite das intervenções humanas, já que há alternativas para concepção, como as chamadas “barrigas de aluguel”. Apesar de importante para o individuo, os riscos do transplante para mãe, sob imunossupressão, e para o bebê não são totalmente conhecidos.

A crise do Ebola, a resistência aos antibióticos e o transplante de útero são exemplos dos problemas da sociedade em que vivemos: de um lado, questões de saúde pública, que têm muito a ver com financiamento, planejamento, gestão de recursos e desigualdade social; de outro, uma fonte quase inesgotável de recursos que permite o uso indiscriminado de antibióticos (muitos caríssimos) e transplante de útero: será que podemos usar os recursos para a saúde de maneira racional e não deixar ninguém de fora dos avanços da ciência?