Pela primeira vez na história, a obesidade se tornou mais comum do que a desnutrição em crianças e adolescentes do mundo todo. O alerta do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) expôs a disseminação de alimentos ultraprocessados na mesa das famílias, influenciadas pelo poder econômico e marketing agressivo da indústria alimentícia.
Para frear esse avanço, países discutem estratégias que visam priorizar alimentos mais saudáveis. A exemplo do México, que implementou um imposto de 1 peso por litro sobre bebidas açucaradas e observou queda no consumo de refrigerantes, energéticos e outros, o Brasil avalia a taxação de 18 centavos por litro nesses produtos a partir da nova reforma tributária.
O país é referência na produção de documentos norteadores, como o Guia Alimentar para a População Brasileira, e também foi o criador da classificação NOVA, que define o que é ou não ultraprocessado e orienta entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Ainda assim, o caminho é longo. Uma série de estudos internacionais publicada na revista The Lancet por 43 cientistas defende que a solução seja uma junção de diferentes políticas públicas e uma resposta global articulada, semelhante ao que aconteceu com o tabaco.
Marion Nestle, uma das autoras, é autoridade mundial no debate entre alimentação e saúde pública e investiga há décadas o papel de grandes corporações na manutenção de um sistema alimentar que gera doenças e insegurança. Em sua passagem pelo Brasil, ela conversou com o Portal Drauzio sobre o que o mundo está fazendo para barrar os ultraprocessados e onde devemos nos atentar em relação à alimentação das crianças. O convite foi possibilitado pela ACT Promoção da Saúde.
Portal Drauzio: Em 2025, pela primeira vez na história, há mais crianças obesas do que crianças desnutridas no mundo. O que isso revela sobre as mudanças globais no consumo alimentar?
Marion Nestle: Isso tem a ver com a internacionalização da alimentação e a expansão global das empresas multinacionais do setor alimentício. Tenho um interesse particular pelas empresas dos Estados Unidos. Se as vendas não estão crescendo tão rápido nos Estados Unidos quanto as empresas gostariam, elas tentam comercializar os produtos no exterior e fazem um enorme esforço para vendê-los em países de baixa e média renda.
Elas [as empresas] aprendem a mudar a cultura desses países para que as pessoas se acostumem a comer alimentos ultraprocessados. E isso não demora muito, porque os alimentos têm um sabor muito bom e, se o preço for baixo o suficiente e eles forem apresentados com uma aura de avanços ocidentais, as pessoas os compram e se acostumam a eles. Isso é um incentivo para consumirem mais calorias, fazendo com que ganhem peso e mudem suas dietas tradicionais para uma dieta mais ultraprocessada.
Portal Drauzio: E eles têm muitas estratégias voltadas para crianças?
Marion Nestle: Sim, porque se você conseguir fazer com que as crianças gostem desses produtos, acreditem que esses produtos são o que elas devem comer, normalizem o consumo desses produtos, então elas serão clientes para a vida toda. E o marketing é direcionado às crianças bem pequenas. Bem pequenas mesmo.
Portal Drauzio: Você acredita que estamos falhando na proteção da segurança alimentar das crianças? Que tipo de intervenção você considera mais eficaz para combater os alimentos ultraprocessados e suas consequências nessa faixa etária?
Marion Nestle: Acho que primeiro devemos parar com o marketing. E pelo que eu sei, isso é o que chamamos de linha divisória na indústria alimentícia. É a linha que não se pode cruzar. Qualquer coisa que soe como uma restrição ao marketing direcionado a crianças é algo que a indústria combate com todas as forças.
Já ouvi executivos da indústria alimentícia dizerem que sabem que fazer marketing direcionado a crianças é errado. Eles gostariam de parar de fazer marketing para crianças, mas seus acionistas não permitem. Eu já os ouvi dizer isso. E é exatamente disso que se trata. Trata-se de lucros e retorno para os acionistas. Essa é a prioridade número um dessas empresas. Não importa o que isso faça com a saúde das crianças. Então, a primeira coisa a fazer: parar com o marketing.
E depois, melhorar a alimentação escolar. Se a alimentação escolar precisa ser melhorada — e frequentemente precisa —, essa seria a segunda coisa a se fazer, porque para muitas crianças, a comida da escola é a melhor que elas terão durante o dia. Essa é a realidade em lugares onde muitas crianças nunca fazem refeições de verdade.
Portanto, esses dois aspectos seriam muito importantes. E também tornar os alimentos para crianças mais baratos, para que os pais possam comprar alimentos mais saudáveis com facilidade.
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Portal Drauzio: Muitos pais acham que os alimentos ultraprocessados são melhores porque são mais baratos, práticos e podem ser preparados em cerca de 10 minutos. E as crianças gostam, além de tudo. O que você diria a uma família que deseja melhorar a alimentação de seus filhos, mas não sabe como?
Marion Nestle: Eles acham caro e distante de suas realidades, mas fazem o melhor que podem.
Se souberem cozinhar, podem comprar ingredientes bem baratos e preparar algo delicioso que as crianças vão gostar, mas precisam saber cozinhar. E precisam ter tempo e utensílios: facas, panelas, fogão, geladeira… Precisam dessas coisas para cozinhar para a família.
Quer dizer, o problema é que você tem que comprar os ingredientes, cozinhar e lavar a louça. Para muitas famílias, isso é muita coisa. Mas se você souber como, é muito mais barato cozinhar a própria comida. Você pode preparar refeições rapidamente e sem fazer muita bagunça.
Só que a indústria alimentícia se esforçou bastante para convencer as pessoas de que cozinhar é difícil e complicado e que seus produtos são a solução para um problema que não necessariamente existia antes.
Portal Drauzio: Agora falando em políticas públicas, o Brasil desenvolveu a classificação NOVA e se tornou referência em guias alimentares. Mas os Estados Unidos também exercem grande influência internacional na política alimentar e no marketing de alimentos ultraprocessados. O que você acha que o Brasil pode ensinar aos Estados Unidos e o que nosso país pode aprender?
Marion Nestle: O Brasil tem, sem dúvida, as melhores diretrizes alimentares do mundo. As melhores de todas. O conceito de alimentos ultraprocessados, os Estados Unidos gostem ou não, está se espalhando. As pessoas entenderam isso. Está se tornando mundial. Tem reconhecimento mundial. Mas nasceu aqui.
A revista The Lancet acaba de publicar três artigos sobre alimentos ultraprocessados. Um deles é liderado por Carlos Monteiro [professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e fundador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde], daqui do Brasil. É um conceito muito poderoso. Quer a indústria alimentícia goste ou não, veio para ficar.
Se alguém quiser aprender essa lição, ela está aí. As pessoas terão que reagir a isso. Não só no Brasil, mas em países como México, Chile e outros da América Latina que estão preocupados com a obesidade, principalmente a obesidade infantil, e querem preveni-la, os seus governos estão fazendo o possível para isso. Sabendo que, se não a prevenirem, terão que lidar com o aumento do diabetes tipo 2, doenças cardíacas e outras doenças muito caras.
Acho que existem profissionais de saúde pública nos Estados Unidos que estão cientes do problema e querem fazer algo a respeito, mas não parece que seja possível no momento.
Portal Drauzio: Por que?
Marion Nestle: Bom, precisamos eleger um governo diferente. Esse é o primeiro passo, e isso não vai acontecer tão cedo. Estamos com problemas na saúde pública. Mas acho que há uma série de políticas possíveis de serem implementadas, como restrições à comercialização, mudanças na forma como os subsídios são distribuídos, rótulos de advertência e impostos.
Todas essas são estratégias que, se usadas em conjunto, podem ter um impacto significativo. Cada uma delas tem um pequeno impacto individualmente, mas ninguém as implementou simultaneamente, e acredito que isso precisa ser feito. Além da educação, é claro.
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Portal Drauzio: Aqui no Brasil, estamos discutindo uma nova reforma tributária. Um dos pontos é o aumento de impostos sobre bebidas açucaradas e outras categorias de alimentos ultraprocessados. Como isso poderia contribuir para uma alimentação melhor para a população?
Marion Nestle: Eles [os impostos] encarecem os alimentos ultraprocessados para que as pessoas não os comprem tanto e barateiam os alimentos saudáveis para que as pessoas comprem mais deles. Essa é a estratégia.
Nos locais onde isso foi testado, funciona. Os impostos desencorajam as pessoas a comprar alimentos ultraprocessados. Não faz, diretamente, com que as pessoas ganhem menos peso, isso não foi comprovado. Mas certamente contribui para essa tendência e melhora a qualidade da saúde humana.
Temos impostos desse tipo em várias cidades dos Estados Unidos, e o efeito deles nessas cidades foi avaliado, mostrando uma diminuição no consumo. Nos países da América Latina, não tenho certeza absoluta, mas acho que no México, embora o México seja o país com mais políticas desse tipo em vigor. Eles conseguem demonstrar uma redução nas compras, mas não acho que consigam demonstrar uma redução na obesidade. Isso seria muito difícil de comprovar. Veremos.
Portal Drauzio: Nos artigos publicados na The Lancet, vocês defendem a criação de uma coalizão global para enfrentar os efeitos dos alimentos ultraprocessados no mundo, assim como aconteceu com o tabaco alguns anos atrás. Como essa coalizão pode funcionar na prática e quais países você acha que têm mais condições de liderar esse movimento?
Marion Nestle: O paralelo é com a convenção sobre o tabaco, onde os países se uniram para tentar reduzir a produção e o consumo de tabaco. A ideia seria que isso funcionasse da mesma maneira, mas ainda não existem exemplos. Neste momento, trata-se de uma questão altamente teórica. A esperança dos grupos que produziram esta série de artigos é que as evidências apresentadas sejam suficientemente convincentes para que a Organização das Nações Unidas (ONU) e outros países abordem a questão dos alimentos ultraprocessados de forma muito mais séria.
Portal Drauzio: Você acha que já temos algum movimento nessa direção no mundo, ou ainda há um longo caminho a percorrer?
Marion Nestle: Os especialistas em saúde pública consideram este um assunto muito importante. No entanto, a resistência tem sido muito intensa, porque se as pessoas não comprarem alimentos ultraprocessados, a indústria alimentícia perderá enormes lucros.
E também existem nutricionistas muito preocupados com o fato de o ultraprocessamento não ter nada a ver com a qualidade nutricional dos alimentos e que, ao sugerir um menor consumo de alimentos ultraprocessados, estaríamos sugerindo um menor consumo de alguns alimentos que têm valor nutricional.* Isso certamente é verdade, mas acho que é uma questão marginal. Não comer junk food e substituí-la por alimentos mais saudáveis seria uma ótima ideia para a maioria das pessoas.
Portal Drauzio: Esse é um problema complexo que envolve a indústria, o governo, os impostos e questões muito mais políticas do que pessoais. Mas se alguém que está lendo esta entrevista quer mudar sua alimentação e reduzir o consumo de ultraprocessados, por onde começar?
Marion Nestle: Um dos pontos da série da The Lancet é que esse não é um problema pessoal. É um problema político que envolve os sistemas alimentares. O que se deseja é mudar o sistema alimentar para que seja mais fácil para as pessoas fazer escolhas mais saudáveis.
Para as pessoas que estão tentando se alimentar de forma saudável na situação atual, é como se estivessem lutando sozinhas contra todo um sistema alimentar. E esse sistema é estruturado para induzir o consumo de alimentos inadequados, o máximo possível, pois é aí que está o lucro.
A primeira coisa a fazer seria reconhecer que, toda vez que você vai a uma loja e compra comida, está se deparando com um sistema alimentar projetado para induzi-lo a consumir os alimentos mais prejudiciais à saúde. Uma vez que você entenda isso, poderá pensar em como fazer o melhor que puder com a situação.
Tenho muita empatia por você e sei o quão difícil isso pode ser. Sabe, tente comer mais vegetais. Essa simples mudança pode fazer uma grande diferença no aumento da ingestão de fibras e nutrientes. Além disso, reduzir as calorias pode trazer muitos benefícios.
Tente não comprar tantos alimentos ultraprocessados ou, se for comprar alimentos embalados, opte por aqueles que não sejam tão ultraprocessados. Ou seja, compre alimentos com menos aditivos, menos açúcar e menos sal.
Leia os rótulos. Os rótulos dos produtos brasileiros são bastante informativos. Eles são muito bons e informativos. Se as embalagens tiverem avisos, não compre ou compre menos.
Faça pequenas mudanças que estejam ao seu alcance. Tente fazer com que seus filhos comam comida de verdade em vez de comida processada. Isso é difícil porque as empresas direcionam seu marketing para crianças de forma deliberada. E faça o melhor que puder. É tudo o que se pode pedir.
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*Muitos nutricionistas acreditam que quando se condena todos os ultraprocessados, isso acaba desestimulando produtos que poderiam ser boas opções, como algumas bebidas vegetais, produtos fortificados ou snacks mais nutritivos. Estas, no entanto, ainda são minoria. A adoção da rotulagem frontal de alimentos (a “lupa”) pelo Brasil em 2022 permitiu diferenciar produtos altamente ultraprocessados de produtos ultraprocessados com perfil nutricional mais aceitável, já que alerta o consumidor quando há altos níveis de açúcares adicionais, gorduras saturadas e sódio.




