Milhões de pessoas sofrem de hemorroidas. Em nosso site, o tema está permanentemente entre as cinco páginas mais visitadas. Das patologias do aparelho digestivo, elas só perdem em prevalência para o refluxo gastresofágico e para os distúrbios funcionais dos intestinos.

Hemorroidas fazem parte da anatomia normal. São formadas por fibras conjuntivas e uma rede de artérias e veias conectadas na submucosa da região anorretal. Esse acolchoamento vascular está envolvido nas sensações que permitem avaliar o conteúdo do reto, facilita o fechamento e a continência do ânus e protege o esfíncter anal dos traumatismos associados à defecação.

De acordo com a localização em relação à linha denteada – área do revestimento interno situada a 3cm ou 4cm acima do rebordo anal – as hemorroidas costumam ser divididas em três grupos: internas (acima dessa linha), externas (abaixo dela) e mistas.

Não estão claras as causas dos sintomas. Um estudo austríaco, que reuniu pessoas submetidas à colonoscopia de rotina, encontrou hemorroidas aumentadas e visíveis em 39%. Apenas a metade se queixava delas.

Os sintomas surgem quando o complexo hemorroidário se projeta na direção do ânus, porque os tecidos que lhe dão suporte enfraqueceram ou foram traumatizados. Esse “escorregamento” do feixe vascular dificulta o retorno do sangue venoso, inflama e edemacia os vasos, criando um ciclo vicioso.

O risco é mais alto nas situações em que ocorre aumento da pressão no interior do reto: gravidez, obstipação, diarreia, ascite, hipotonia do assoalho pélvico, anormalidades vasculares, obesidade, sedentarismo e dieta pobre em fibras.

As manifestações variam com a gravidade. Em cerca de 60% dos casos ocorre sangramento durante ou imediatamente depois da evacuação. Podem aparecer gotas de sangue no papel higiênico, na água do vaso sanitário e até na roupa.

O segundo sintoma mais frequente é o prurido, presente em 55% das vezes. Desconforto faz parte de 20% das queixas, mas dores fortes são raras tanto nas hemorroidas externas quanto internas, a menos que haja complicações: tromboses, prolapsos, isquemia ou encarceramento hemorroidário.

Dores fortes fazem suspeitar de outras condições: fissuras anais, infecções, abscessos, câncer de cólon e reto, ulcerações retais, doenças inflamatórias intestinais, verrugas anais, pólipos ou diverticulite.

De acordo com a extensão, as hemorroidas podem ser de primeiro grau (vasos salientes e engorgitados, mas que não se deslocam para baixo); segundo grau (hemorroidas que se deslocam ao esforço, mas retornam à posição original espontaneamente); terceiro grau (quando há prolapso que precisa ser reduzido com os dedos) e quarto grau (quando o prolapso já não pode ser reduzido manualmente).

A medida preventiva mais importante é evitar a obstipação. Passar o dia sentado, beber pouca água e dieta pobre em fibras formam bolos fecais ressecados que progridem lentamente, pressionam e lesam os tecidos hemorroidários no esforço evacuatório.

É fundamental criar uma rotina para que os intestinos funcionem no mesmo horário, de preferência logo depois do café da manhã, antes de sair de casa. Quando os estímulos para evacuar são frustrados, a fisiologia é subvertida, a água do conteúdo fecal é absorvida e aumenta a pressão na luz intestinal.

A evacuação ideal é a que acontece com esforço mínimo, em um ou dois movimentos expulsivos. O hábito de ler jornal no vaso sanitário, forçando-a diversas vezes, é péssimo. Banheiro não é biblioteca.

O uso do papel higiênico traumatiza a mucosa retal, inflama os tecidos hemorroidários e agrava o quadro. A higiene deve ser feita com água, sabão e delicadeza.

Pomadas contendo corticoides, vasoconstritores e analgésicos aliviam os sintomas.

Quando essas medidas falham há procedimentos cirúrgicos que vão da simples ligadura ambulatorial dos vasos, às cirurgias mais agressivas, indicadas de acordo com a gravidade.

Para encerrar, deixo uma advertência: canso de ver casos de diagnóstico tardio de câncer colorretal em que o sangramento foi menosprezado. Nem tudo que sangra pelo reto é hemorroida.