Meu amigo Erney

O professor Erney, que viria a se tornar seu amigo, ensinou ao dr. Drauzio o amor pela saúde pública. Leia neste artigo.

casa de pau a pique no nordeste brasileiro. Dr. Drauzio conta a história do seu amigo Erney

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Publicado em: 13/03/2023

Revisado em: 13/03/2023

Neste artigo, o dr. Drauzio conta a história de seu amigo Erney, que foi também seu professor na Faculdade de Medicina.

 

Há professores aos quais devemos muito. Entre dezenas de outros com quem convivemos nas escolas, eles se destacaram por ampliar nossos horizontes, dar lições de vida e apontar caminhos que não teríamos encontrado sem a influência intelectual e o exemplo que nos deram.

Para mim, o professor Erney Plessmann de Camargo foi um desses.

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Em 1962, quando entrei na faculdade, ele era o assistente mais jovem do Departamento de Parasitologia da USP. Eram tempos de efervescência cultural e agitação política. Analfabetismo, miséria, mortalidade infantil e desnutrição estavam por toda parte, em alguns estados a expectativa de vida mal passava dos 40 anos.

As endemias rurais constituíam o principal agravo de saúde pública. Tínhamos anualmente cerca de 120 mil casos novos de doença de Chagas. Ao redor de 1 milhão de brasileiros conviviam com o Trypanossoma causador, protozoário que Luiz Hildebrando e Ermey pesquisavam. Antes concentrada nas “lagoas de coceira” do Nordeste, a esquistossomose chegava à periferia de São Paulo, trazendo com ela cirrose hepática e mortes precoces. A malária fazia parte do cotidiano amazonense.

Contraditoriamente, a faculdade nos preparava para o exercício de uma profissão liberal. O acesso dos mais pobres à assistência médica dependia da caridade pública.

A cadeira de Parasitologia era um oásis nessa falta de consciência social. O professor Samuel Pessôa, chefe do departamento, soube reunir pesquisadores interessados em levar o conhecimento científico para as regiões mais remotas: Luiz Rey, Luiz Hildebrando Pereira da Silva, Leônidas e Maria Deane e o Erney, entre outros.

A Parasitologia era ensinada no segundo ano do curso. As discussões acadêmicas, as pesquisas e o real interesse daquele grupo em preparar estudantes interessados em saúde pública e no pensamento científico, exerceram grande influência em minha formação.

Todos os anos, o departamento organizava a Bandeira Científica, com o objetivo de levar os segundanistas para um trabalho de campo em regiões remotas do Brasil. Na minha turma, o coordenador da expedição foi o Erney.

Antes da viagem, feita num ônibus velho cedido pelo governo do Estado, ele reuniu o grupo para explicar que iríamos para os confins da fronteira da Bahia com Sergipe, junto à Cachoeira de Paulo Afonso, em que estava instalada a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), responsável pela distribuição de energia elétrica para os estados do Nordeste.

Realizaríamos exames de fezes nas crianças residentes em duas áreas separadas por uma cerca: de um lado, as que viviam nas casas reservadas aos funcionários da Chesf; do outro, as que moravam nas habitações precárias da cidadezinha ao lado, sem uma rua calçada sequer.

A intenção era mostrar que o termo “doenças tropicais”, não passava de preconceito dos países mais ricos. Elas não eram um tributo a pagar para viver junto à linha do Equador, mas doenças do subdesenvolvimento.

Se me lembro, a prevalência de verminoses no lado da cerca em que moravam as crianças protegidas pela Chesf foi de cerca de 10%, enquanto nas que moravam na precariedade da vizinhança chegou perto de 100%.

O aspecto doentio das mulheres, homens e crianças que viviam nos casebres de pau a pique do sertão de Minas e da Bahia, foi um divisor de águas: pela primeira vez entendi em que país eu vivia.

Na viagem, ficamos amigos. Conversávamos horas e horas, falávamos de saúde pública, ciência, cinema, artes plásticas e literatura, tudo o que ele dizia me interessava.

Em 1964, Erney e outros professores foram acusados de comunistas e demitidos da universidade, uma chaga na história da USP. Convidado pela Universidade de Winsconsin, ele e a família passaram cinco anos nos Estados Unidos.

Quando o Brasil começou a voltar à civilização, ele, foi contratado pela Unifesp. Mais tarde seria presidente do CNPq e do Instituto Butantan, professor emérito da USP e presidente e da Fundação Conrado Wessel, entre outros cargos reservados aos cientistas mais brilhantes.

Tive o privilégio de conviver com esse intelectual, com quem aprendi tanto. Nos últimos anos, em longas conversas em mesa de bar.

Na última sexta-feira, recebi a notícia do falecimento do amigo inesquecível. Perder pessoas queridas é a provação mais cruel que o envelhecimento nos impõe.

 

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