Ian Wilmut e Keith Campbell, os dois cientistas que clonaram a ovelha Dolly, um dia receberão o Prêmio Nobel de Medicina, merecidamente.

Quando um óvulo é fecundado por um espermatozoide, a célula resultante começa a se dividir para formar duas, quatro, oito células-filhas, e assim sucessivamente.

Em 1892, um cientista alemão separou as duas células resultantes da primeira divisão de um óvulo fecundado de ouriço-do-mar.

Separadas, cada uma delas formou um embrião inteiro (se tivessem permanecido juntas cada uma formaria apenas metade do embrião).

Logo no início do século 20, o experimento foi repetido com óvulos fecundados de rãs e os resultados foram semelhantes, demonstrando que as primeiras células de um embrião são totipotentes, isto é, carregam com elas todas as informações necessárias para gerar um organismo completo.

Na década de 1950, pesquisadores americanos observaram que, ao retirar o núcleo de células obtidas nas primeiras fases do desenvolvimento embrionário de uma rã e transferi-lo para um óvulo não fertilizado, do qual o núcleo havia sido previamente retirado, os girinos nasciam normalmente. A experiência só dava certo, no entanto, quando os núcleos eram obtidos a partir das primeiras divisões embrionárias. Admitiu-se, então, que, à medida que o embrião se desenvolve, suas células se diferenciam e perdem o potencial para gerar novos embriões completos.

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Dez anos mais tarde, esse conceito foi abalado: núcleos de células intestinais de sapos maduros transferidos para óvulos sem núcleo eram capazes de produzir girinos que se transformavam em sapos normais. Foi a primeira clonagem obtida a partir da informação genética contida em células adultas.

Impressionados com a possibilidade de clonar sapos e rãs a partir da clonagem de células adultas, os escoceses Wilmut e Campbell desenvolveram uma técnica que lhes permitiu transferir núcleos retirados de células mamárias de uma ovelha adulta para um óvulo sem núcleo. Nasceu Dolly, o primeiro mamífero clonado a partir das células de um adulto. Depois dela, foram clonados camundongos, bois, cabritos, ratos e até uma espécie de alce africano ameaçado de extinção.

Esta semana, Michael D. West, presidente da Advanced Cell Technology (ACT), e demais pesquisadores anunciaram ter clonado o primeiro embrião humano da história. Tecnicamente, o procedimento não foi diferente daquele utilizado em animais: transferência do núcleo de uma célula adulta (da pele, neste caso) para um óvulo sem núcleo.

Como consequência, foram obtidas seis células embrionárias, resultado ainda modesto em termos científicos, mas suficiente para despertar clamores de religiosos e políticos. “Isso está indo na direção errada”, afirmou o líder dos democratas no Senado americano.

O que pretende a Advanced Cell Technology ao publicar na imprensa leiga resultados tão iniciais? Provavelmente, obter a patente da clonagem de células humanas para cobrar royalties de todos os que desejarem se beneficiar do incrível potencial terapêutico dessa metodologia.

Imagine que o seu fígado daqui a dez anos, leitor, por uma dessas casualidades da vida, comece a funcionar tão mal que só um transplante possa salvá-lo. O que você preferiria: entrar numa fila à espera de um doador ou clonar algumas células suas num óvulo vazio, para obter um embrião-doador de células totipotentes que, injetadas no seu fígado, regerem a função do órgão?

Com a vantagem adicional de que essas células serão suas, idênticas a todas as outras do organismo, de modo que não haverá necessidade de tomar os medicamentos imunossupressores obrigatórios nos casos de transplantes entre indivíduos diferentes. Nessa hora, você gostaria de ouvir que clonar meia dúzia de células embrionárias que poderão salvar sua vida é pecado mortal ou proibido por lei?

Além dos transplantes, as possibilidades de aplicação da clonagem de células totipotentes a partir de células adultas são tantas que é difícil imaginar um campo da medicina que não será afetado por essa tecnologia.

Envolver a clonagem terapêutica na discussão filosófica da clonagem de seres humanos é um fundamentalismo tão absurdo quanto proibir a fabricação de facas de cozinha para evitar que as pessoas se esfaqueiem, ou obrigar as mulheres a se cobrir da cabeça aos pés para não despertarem tentações sexuais.