Drauzio

Resistência múltipla | Artigo

radiografia de pulmão de paciente com tuberculose

A previsão de erradicar a tuberculose nas primeiras décadas do século 21 não passou de um sonho. A doença é ainda uma das que mais mata.

 

Vem de longe nossa mania de atribuir ao doente a culpa pela doença contraída.

A literatura ocidental é pródiga em casos de tuberculose entre virgens desiludidas e rapazes devassos. A julgar por esses relatos, no século 19, além da epidemia de paixões angelicais não correspondidas, a devassidão devia andar por toda parte, já que a doença dizimava um quarto da população europeia.

Veja também: Entrevista sobre tuberculose

Em março de 1882, o bacteriologista alemão Robert Koch descreveu o BK, o bacilo que levaria seu nome. No manuscrito, que lhe deu o Nobel de 1905, ele dizia: “No futuro, a luta contra essa praga terrível não vai lidar com algo indeterminado, mas com um parasita tangível”.

A era do tratamento, entretanto, seria inaugurada apenas em 1943, com a descoberta da estreptomicina, nos Estados Unidos.

Nos anos seguintes, foram descritos vários casos de cura, mas numa porcentagem significante deles havia recaídas, causadas por bacilos resistentes ao antibiótico.

Em 1951, foi sintetizada a isoniazida. Na década que se seguiu, surgiram a pirazinamida, a rifampicina e o etambutol, drogas que melhoraram a eficácia do tratamento, sobretudo quando empregadas em combinações, para contornar o inconveniente da resistência. Mais tarde, o mesmo conceito seria aplicado no câncer, na Aids e em outras enfermidades infecciosas.

Diversos estudos acabaram por estabelecer o consenso de que a tuberculose deve ser tratada com a associação de isoniazida, rifampicina e mais uma ou duas drogas, administradas por no mínimo seis meses.

Embora os medicamentos empregados nos esquemas de rotina sejam baratos, os custos daqueles receitados para os bacilos multirresistentes são altos. Como países pobres arcarão com despesas tão altas sem auxílio internacional?

Apesar desses avanços, ainda é a doença infecciosa mais letal. No mundo, ocorrem anualmente 9 milhões de casos novos e 2 milhões de mortes.

A resistência ao tratamento nunca deixou de ocorrer. A estimativa da Organização Mundial da Saúde é de que, a cada ano, surjam 500 mil novas infecções por bacilos resistentes à isoniazida e à rifampicina, que constituem o núcleo central das associações. Menos de 1% desse contingente recebe a medicação adequada.

Causada por germes sensíveis ou resistentes, a tuberculose continuou a ser vista como um dos males ligados à pobreza, desnutrição e moradias insalubres, atributos que desinteressaram os governos dos países mais ricos e a indústria farmacêutica a investir na pesquisa de novos medicamentos e vacinas preventivas.

No início dos anos 1990, o aparecimento de tuberculose multirresistente com índices altos de letalidade, nos Estados Unidos, mudou o panorama. Nesses casos, o tratamento convencional baseado em esquemas contendo isoniazida e rifampicina, durante seis meses, é ineficaz.

Despertadas para a nova realidade, as autoridades sanitárias americanas consideraram que a simples pesquisa de BK no escarro, método tradicional de diagnóstico, devia ser considerada insuficiente para instituir o tratamento ideal. Seria necessário também semear o bacilo em caldo de cultura para analisar seus níveis de resistência, selecionar as drogas mais eficazes e prolongar a duração do tratamento.

Agora, vejam a complexidade do desafio. São 9 milhões de novos doentes por ano, a maioria dos quais em países com sistemas de saúde precários, em que a simples realização da pesquisa de BK (que consiste em corar o escarro e examiná-lo em microscópio comum) nem sempre está disponível. Como instituir a obrigatoriedade das culturas e testes de sensibilidade que exigem recursos financeiros, tecnologia e pessoal especializado?

Uma das principais causas do aparecimento de resistência é falta de aderência ao tratamento. Não é fácil convencer alguém a tomar remédio todos os dias durante meses, tarefa especialmente ingrata depois que os sintomas foram embora. Muito mais problemática é a aderência nos casos com resistência, nos quais a terapêutica deve ser mantida por um a dois anos, ou por tempo mais prolongado.

Embora os medicamentos empregados nos esquemas de rotina sejam baratos, os custos daqueles receitados para os bacilos multirresistentes são altos. Como países pobres arcarão com despesas tão altas sem auxílio internacional? Como impedir que bacilos multirresistentes se espalhem pelo mundo?

A conclusão é triste: a previsão de erradicar a tuberculose nas primeiras décadas do século 21 não passou de um sonho.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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