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O paradoxo da obesidade | Artigo

mulher se pesando em balança. o paradoxo da obesidade mostra

Paradoxo da obesidade: estudos anteriores levantaram a suspeita de que pessoas na faixa do excesso de peso teriam níveis de mortalidade até mais baixos do que as da faixa do peso normal.

 

O conceito de que estar com excesso de peso não prejudica a saúde está abalado.

Estudos anteriores levantaram a suspeita de que pessoas na faixa do excesso de peso (IMC = peso/altura x altura, entre 25,0 a 29,9) teriam níveis de mortalidade até mais baixos do que as da faixa do peso normal (18,5 a 24,9). Essa controvérsia ficou conhecida como “paradoxo da obesidade”.

Os críticos argumentavam que esses trabalhos não levavam em conta a idade da instalação nem a duração das enfermidades cardiovasculares prevalentes entre aqueles com excesso de peso e obesidade (IMC igual ou maior do que 30,0).

O “Journal of the American Medical Association” (JAMA) acaba de publicar uma pesquisa realizada com o objetivo da avaliar o risco de doenças cardiovasculares, o número de anos vividos com ou sem elas, a mortalidade geral e a longevidade, de acordo com a faixa do IMC.

 

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Os autores recolheram dados de 190 mil americanos de 20 a 79 anos, no período de 1964 a 2015. O IMC foi relacionado com os diversos tipos de doenças cardiovasculares, fatais ou não, e com a mortalidade geral.

Cerca de 3/4 dos participantes eram mulheres, com idade média de 58,7 anos. A média dos homens tinha 46 anos.

As pessoas que caíram nas faixas de excesso de peso e de obesidade apresentaram riscos mais altos de desenvolver doenças cardiovasculares do que as da faixa da normalidade: 21% e 32%, respectivamente. Na obesidade grave (IMC igual ou acima de 40,0), o risco aumentou 2,5 vezes.

O número de anos vividos com doença cardiovascular foi maior nos obesos e naqueles com excesso de peso. Nos homens com excesso de peso, o número de anos passados sem nenhuma doença cardiovascular foi menor do que na faixa normal, porém maior do que nos obesos.

Estudos como o atual têm a fragilidade de não levar em conta a atividade física. Seria muito interessante termos a comparação entre os que estão com excesso de peso, mas fazem exercícios, com os sedentários que caem na faixa da normalidade.

Ao contrário dos estudos anteriores que atribuíam maior longevidade aos que estavam com excesso de peso, a longevidade foi a mesma do que na faixa do peso normal. Na obesidade, foi menor.

Nas mulheres com peso normal, o tempo de vida sem essas doenças também foi maior do que nas demais.

A morbidade e a mortalidade cardiovascular, bem como a mortalidade geral, foram mais altas na faixa de obesidade.

A despeito da longevidade no excesso de peso ter sido igual à da faixa de normalidade, ficou claro que IMCs entre 25,0 e 29,9 aumentam de forma significativa o risco de desenvolver doenças cardiovasculares mais precocemente, portanto o de passar mais anos com qualidade de vida prejudicada.

Esses achados se mantiveram em todas as faixas etárias.

A Organização Mundial da Saúde considera a obesidade uma pandemia, que atinge 2,1 bilhões de pessoas, nos cinco continentes. Iniciada nos Estados Unidos, a epidemia se espalhou para países emergentes, como México, Brasil e Rússia, e chegou aos mais pobres. Nem a Ásia escapou. China e Índia, por exemplo, vivem esse problema.

Estudos como o atual têm a fragilidade de não levar em conta a atividade física. Seria muito interessante termos a comparação entre os que estão com excesso de peso, mas fazem exercícios, com os sedentários que caem na faixa da normalidade.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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