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O fim das restrições para conter a pandemia foi baseado em decisões políticas.

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

close em mão de mulher sob o teclado do computador, com máscara ao lado sobre a mesa. Fim das restrições para conter a covid é precoce

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Publicado em: 31 de março de 2022

Revisado em: 31 de março de 2022

O fim das restrições para conter a pandemia foi baseado em decisões políticas.

 

Está errado liberar já o uso de máscara em lugares fechados. É uma medida adotada por razões políticas, não conheço um médico bem preparado que esteja de acordo com ela.

Nos últimos dois anos, aprendemos muito sobre a transmissão do Sars-CoV-2. No início de 2020, tirávamos o sapato para entrar em casa e passávamos álcool em tudo o que vinha do supermercado, lembra?

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Um dia, eu ensaboava uma por uma as batatas, cenouras, bananas, abobrinhas, berinjelas e os sacos plásticos com os mantimentos que haviam acabado de chegar. Calculei que naquele ritmo a tarefa duraria mais de meia-hora. Desanimei.

Desanimei, porque o cuidado me pareceu inútil. Aquele era um vírus de transmissão respiratória, como o da gripe ou o do resfriado: gotículas eliminadas ao tossir, falar, respirar, espirrar. Nunca fiquei nem soube de um paciente gripado, porque comeu um tomate ou uma mexerica mal lavada.

Por raciocínio análogo, entendi que deixar os sapatos do lado de fora, embora hábito muito civilizado, (obrigatório no Japão e nas comunidades ribeirinhas da Amazônia), não fazia sentido para evitar a transmissão do coronavírus. Você, caríssima leitora, já pegou gripe no tapete da sala?

Não escrevi nem falei dessas dúvidas em lugar nenhum. Em medicina, impressões pessoais só têm valor quando confirmadas por evidências científicas.

Meses depois, os virologistas demonstraram a inutilidade dessas medidas, bem como a de esfregar álcool em todas as superfícies da casa. A transmissão através do contato com objetos é insignificante.

No ano passado, estudos epidemiológicos conduzidos em vários países concluíram que a transmissão do vírus em espaços abertos é rara. Alguns pesquisadores estimam que apenas 1% dos infectados teriam adquirido o vírus dessa maneira.

Justamente quando a pandemia começa a dar uma pequena trégua, vamos relaxar, só para atender aos interesses de alguns políticos?

Quando esses trabalhos foram publicados, ficou evidente que erramos ao fechar praias e parques, enquanto o povo se aglomerava em bares, restaurantes e baladas clandestinas.

No fim de 2020, alguns cientistas chamaram a atenção para um fenômeno de importância epidemiológica, até então menosprezado nas viroses respiratórias: os aerossóis formados por gotículas minúsculas que permanecem em suspensão no ar, depois de exaladas por quem está infectado. Aspirar esses aerossóis invisíveis que flutuam por mais tempo em ambientes mal ventilados, aumenta muito o risco de transmissão.

A disseminação rápida da Ômicron, nos últimos meses de 2021, mostrou que pode emergir uma variante altamente contagiosa capaz de ludibriar a resposta imunológica mesmo naqueles vacinados e previamente infectados por outras cepas.

A ômicron não causou mortalidade semelhante à das variantes anteriores por uma feliz coincidência: encontrou uma população com índices altos de vacinação recente e grande número de pessoas anteriormente curadas da covid.

É pensamento mágico imaginar que não poderão aparecer variantes mais contagiosas, que encontrarão terreno fértil entre os não vacinados ou que não receberam o esquema vacinal completo, os imunodeprimidos e os que foram imunizados há mais tempo.

Nestes dias, temos visto lockdown em cidades chinesas, porque o número de infectados aumentou seis vezes em comparação com o de duas semanas atrás. Na Coreia do Sul, os casos duplicaram nesse período; na Alemanha, Áustria, França, Holanda, Itália, Suíça e Reino Unido, a média móvel do número de infecções e de mortes cresceu significativamente. Depois de ter liberado, a Áustria voltou a exigir o uso de máscaras em lugares fechados.

Aqui, a média móvel de casos e a de mortes têm caído, mas ainda perdem a vida cerca de 300 brasileiros por dia. É pouco?

Não seria mais sensato aguardarmos algumas semanas, para ter certeza de que não haverá entre nós a disseminação da covid que agora aflige asiáticos e europeus? Há razão para tanta pressa?

Justamente quando a pandemia começa a dar uma pequena trégua, vamos relaxar, só para atender aos interesses de alguns políticos?

Temos um presidente que fez de tudo para desacreditar as vacinas, mas os brasileiros não acreditaram nele, preferiram ouvir os médicos e os técnicos do Programa Nacional de Imunizações e aderir em massa à vacinação.

Espero que se repita essa demonstração inequívoca da sabedoria popular: vamos manter as máscaras em todos os lugares fechados e mal ventilados. É provável que seja só um pouco mais. Custa?

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