Drauzio

Hipertensão dos mais velhos | Artigo



Prevalência de hipertensão nos mais velhos não para de crescer, aumentando assim a probabilidade de ocorrência de derrame cerebral.

 

Sofre de pressão alta pelo menos a metade dos que chegaram aos 50 anos. Dessa idade em diante, a prevalência não para de crescer, não apenas no Brasil, mas em todos os países e na maioria das raças e dos grupos étnicos.

À medida que os valores da pressão ultrapassam aqueles atualmente considerados ideais (até 11,5 por 7,5), cresce de forma linear a probabilidade de ocorrer derrame cerebral, doença cardíaca isquêmica, insuficiência cardíaca, morte por doença cardiovascular e até de morrer por outras causas.

 

Veja também: Como medir a pressão corretamente

 

Por exemplo, nos 347.978 homens acompanhados no estudo americano “Multiple Risk Factor Intervention Trial” o risco de óbito por infarto do miocárdio daqueles com pressão máxima (sistólica) superior a 18 cm, comparado ao dos apresentavam máxima de até 12 cm, foi 15 vezes maior.

Esse crescimento do risco provocado pela hipertensão tem sido documentado em todas as faixas etárias. Ele, no entanto, parece tornar-se menos acentuado com o passar dos anos. Uma metanálise de estudos que somaram 1 milhão de participantes, mostrou que hipertensos de 50 a 59 anos, com pressão máxima acima de 18 cm, apresentam risco 16 vezes maior de morrer de derrame cerebral. E que acima dos 80 anos, esse risco cai para três.

Dados como esses se prestam a interpretações contraditórias porque acima dos 80 anos é significativo o número de acidentes vasculares cerebrais mesmo na população com pressão normal.

Para aumentar a confusão, um levantamento retrospectivo encontrou dados sugestivos de que, depois dos 80 anos, manter níveis de pressão máxima abaixo de 14 cm, estaria associado ao aumento da mortalidade.

Em junho de 2008, o “The New England Journal of Medicine” publicou os resultados de um estudo muito aguardado pela comunidade médica: o HYVET (The Hypertension in the Very Elderly Trial).

Nele, foram sorteados ao acaso para receber medicação anti-hipertensiva ou comprimidos inertes de placebo, 3.845 pacientes distribuídos em 195 centros médicos de diversos países europeus (Inglaterra, Romênia, França, Bulgária, Bélgica, Rússia), China, Austrália e Tunísia.

Para ser admitido, era preciso ter mais de 80 anos e apresentar pressão máxima acima de 16 cm. A idade dos participantes variou entre 80 e 105 anos (média 83,6); cerca de 60% eram do sexo feminino.

No grupo que recebeu tratamento, os níveis da pressão máxima caíram em média 3 cm, e os da mínima, 1,3 cm. Curiosamente, como costuma ocorrer em estudos semelhantes, no grupo-placebo os níveis de pressão também caíram, porém menos: a máxima diminuiu em média 1,4 e a mínima 0,7 cm.

Depois de um ano e oito meses de acompanhamento médio, ficou demonstrado que aqueles tratados com medicamentos contra a hipertensão apresentaram redução de 30% dos índices de derrame cerebral fatais ou não; redução de 39% na probabilidade de morrer de derrame; redução de 23% do número de mortes por doenças cardiovasculares; redução de 21% do número de mortes por causas gerais; e redução de 64% da incidência de insuficiência cardíaca.

O comitê independente encarregado da análise estatística dos resultados decidiu interromper o estudo depois de um ano e oito meses de seguimento médio, por julgar antiético prossegui-lo sem oferecer tratamento anti-hipertensivo para todos os que recebiam placebo.

Os autores sugerem que, nos hipertensos com mais de 80 anos, obter níveis máximos de 15cm x 8cm através do tratamento medicamentoso é um objetivo razoável, uma vez que no HYVET esse alvo foi atingido em 50% dos participantes tratados. Não há dados para assegurar que reduções abaixo desses níveis sejam ainda mais benéficas.

A hipertensão arterial é o agravo crônico mais prevalente entre as mulheres e os homens mais velhos. Ela é capaz de piorar a qualidade e encurtar a duração da vida em todas as faixas etárias. Os resultados do HYVET deixam claro que nunca é tarde demais para começar a tratá-la.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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