Portadores da síndrome da fadiga crônica sofrem de duas doenças: a que provoca cansaço e a resultante do descrédito alheio.

Com a finalidade de encontrar um rótulo para queixas de cansaço crônico sem causa aparente, apresentada na maior parte das vezes por mulheres de meia idade, há 20 anos o Center for Diseases Control and Prevention (CDC) estabeleceu os seguintes critérios: queixas de fadiga intensa, sem causa aparente, com mais de 6 meses de duração, acompanhadas de sintomas como dores musculares e deficiências de memória.

A falta de critérios mais específicos e de exames laboratoriais que pudessem caracterizar com mais precisão queixas tão subjetivas dividiu a classe médica entre os que defendiam a existência de um agente infeccioso causador da síndrome e os que a consideravam mero distúrbio psiquiátrico.

A alta frequência de queixas de cansaço e falta de energia na vida moderna e a visão preconceituosa do fato de serem principalmente mulheres de meia-idade as que se enquadravam nos critérios diagnósticos fizeram com que parte significativa dos médicos nunca tenha levado a sério a existência de uma síndrome como essa.

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Acrescente-se a tal descrédito outro fator: todas as tentativas para identificar um vírus, bactéria ou fungo que tivesse sua incidência aumentada nesses casos foram infrutíferas. Como consequência, pacientes que referem cansaço intenso sem justificativa clara perambulam pelos consultórios médicos e geralmente enfrentam a incompreensão dos familiares.

Em abril de 2006, o CDC fez um anúncio inesperado que alimentará ainda mais esse debate: a síndrome da fadiga crônica tem base biológica e genética. Essa afirmação foi baseada num estudo conduzido pelo grupo de William Reeves do CDC, na cidade americana de Wichita, no estado de Kansas. Nele, os pesquisadores consultaram por telefone 25% da população da cidade à procura de portadores de fadiga persistente. Foram encontradas 172 pessoas, na maior parte mulheres de meia-idade, que se enquadravam nos critérios da doença. Essas 172, e mais 55 outras utilizadas como grupo-controle, foram submetidas durante dois dias a uma bateria de exames clínicos e laboratoriais que incluiu estudos sobre a qualidade do sono, testes cognitivos, análises bioquímicas e de expressão de genes presentes em glóbulos sangüíneos.

Os dados obtidos foram extensivamente analisados com base em características, como presença de obesidade, distúrbios do sono, estresse, depressão e mutações em determinados genes. Foram encontradas 43 mutações concentradas em 11 genes envolvidos no chamado eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenal, que controla a produção de hormônios como o cortisol, responsável pelas reações do organismo diante do estresse.

Outro achado foi a presença de um padrão inusitado de expressão de mais de 20 genes envolvidos no controle de funções imunológicas e da transmissão de sinais para o interior das células, essenciais para que elas executem adequadamente suas tarefas.

A reação da comunidade científica a esses resultados foi controversa. Para citar opiniões extremas, Anthony Komaroff, da Universidade de Harvard, considerou-os “sólida evidência do equívoco que é considerar a síndrome da fadiga crônica como um conjunto de sintomas apresentados por mulheres histéricas de classe média alta”. Ao contrário, a opinião de Jonathan Kerr, do Imperial College de Londres, é de que “os resultados não têm significado maior; se fossem aplicadas outras técnicas, 30% a 40% dos genes apontados seriam excluídos”.

A razão para a disparidade de interpretações é que doenças raras tradicionalmente colocam em dúvida os dados estatísticos obtidos. Mesmo num estudo que envolveu ¼ da população de uma cidade de porte médio, a casuística se resumiu a 172 pessoas.

Tudo leva a crer que a comprovação da existência de bases biológicas para a síndrome da fadiga crônica, que possibilitará diagnósticos precisos e tratamentos específicos, ainda está para acontecer.