Drauzio

Dia das Mães sem festa | Artigo

Família almoça junta. Reuniões familiares oferecem maior risco de contrair covid

Reuniões familiares descuidadas oferecem risco alto de covid aos participantes.

 

Tome cuidado com o almoço do Dia das Mães. Com a taxas atuais de transmissão do coronavírus, as consequências de uma reunião familiar descuidada podem ser dramáticas.

Você, leitora, dirá que só virão seus filhos com as esposas e os netos. Insistirá que são ajuizados, não frequentam festas clandestinas nem se aglomeram nos bares.

Veja também: Com que máscara eu vou?

Numa pandemia, não é sensato assumir a quarentena dos outros como se fosse a sua; sejam parentes ou estranhos. Hoje, a maior parte das infecções acontece com gente que não vai a baladas e nunca chegou perto de um pancadão, mas nos encontros com duas ou três pessoas em ambientes fechados, muitos deles na intimidade do lar.

Seus filhos, noras e netos chegarão para o almoço com máscara.  Servido o primeiro salgadinho, copo de cerveja ou caipirinha, no entanto, todos se livrarão delas; basta o primeiro tomar a iniciativa. Daí em diante, vira bagunça. Não aconteceu assim no Natal? A consequência não foi uma explosão do número de casos? Se o vírus aproveitou o aniversário de Cristo para se disseminar, haverá de respeitar você e seu marido, pecadores como este que vos adverte?

No decorrer da pandemia, aprendemos que não precisamos jogar álcool em tudo o que entra em casa ou lavar frutas e verduras com água e sabão. Como explicamos na coluna anterior, a transmissão ao tocar nas superfícies é rara; importante é a que ocorre nos interiores mal ventilados.

Gastamos muita energia com medidas inúteis, quando deveríamos nos concentrar naquelas que oferecem risco.

Tudo leva a crer que nossa convivência com esse coronavírus será longa e sofrida. Caminhamos a passos rápidos para as 500 mil mortes, marca trágica que, possivelmente, será atingida ainda no primeiro semestre.

Veja o caso do controle da temperatura na porta das lojas e dos supermercados. Por que fazem a medição? É uma simpatia, como a do jogador que só adentra o gramado com o pé direito? Por curiosidade, pergunte ao porteiro do shopping quantas vezes ele mandou alguém de volta por causa da febre? Quem está febril, com mal-estar, não sai para fazer compras ou toma um comprimido de dipirona para melhorar, antes de ir.

Por que insistem nessa rotina? Porque custa barato e traz sensação de segurança para os frequentadores.

As propagandas que exibem a fúria higienizadora das lojas são exemplos de desperdício de recursos. Uma das redes de shopping centers apregoa a realização de testes rigorosos para detectar a presença do vírus no chão e em todos os cantos imagináveis de suas dependências.

É claro que os lugares públicos devem estar limpos, mas, se o problema é o vírus, o investimento deveria ser dirigido para a ventilação dos espaços, esta, sim, medida que comprovadamente diminui a transmissão. O problema é que custa mais caro do que o revólver de medir temperatura e a parafernália usada para a “desinfecção”.

Os estudos mostram que contrair o coronavírus ao ar livre, ou em ambientes em que o ar é renovado permanentemente pela ventilação natural ou por meio de aparelhos, é bem mais difícil. Manter o comércio, restaurantes e bares abertos, enquanto praças e parques ficam fechados, é um contrassenso. A céu aberto, uma pessoa com máscara que mantenha distância de 1,5 metro a 2 metros das outras estará segura.

Com os conhecimentos adquiridos em mais de um ano de epidemia, está na hora de dizermos para as pessoas, que elas podem andar na rua, desde que o façam de máscara, obrigatoriamente, não abracem nem beijem ninguém, guardem distanciamento de cerca de 2 metros e fujam dos irresponsáveis que andam com a boca e o nariz de fora.

A epidemia de aids nos ensinou que as mensagens educativas devem ser claras e objetivas, para que todos entendam o que podem ou não fazer. É inútil propor regras que a maioria não seguirá. Na época, o papa recomendava: “sexo só depois do casamento e nunca fora dele”. Seria a solução definitiva, se os seres humanos fossem obedientes.

Só conseguimos avançar, quando explicamos que a transmissão sexual do HIV ocorre apenas quando há penetração sem uso de preservativo. Na pandemia atual, o risco está nos ambientes mal ventilados e na exposição ao contato interpessoal sem o uso de máscara.

Tudo leva a crer que nossa convivência com esse coronavírus será longa e sofrida. Caminhamos a passos rápidos para as 500 mil mortes, marca trágica que, possivelmente, será atingida ainda no primeiro semestre. Neste momento, sem vacinas suficientes, todo cuidado é pouco. A máscara é um desconforto insignificante comparado ao sofrimento causado pela doença.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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