Desentendimentos entre mulheres e homens começam no instante em que o espermatozoide penetra o óvulo.

Como o óvulo sempre carrega um cromossomo sexual X, se o espermatozoide trouxer um cromossomo Y, haverá formação do par XY e nascerá um menino. Se trouxer um cromossomo X, o par XX dará uma menina.

Dos primeiros estágios do embrião à vida adulta, nosso cérebro e os demais tecidos serão bombardeados incessantemente pelos hormônios sexuais condicionados à configuração XX ou XY. Eles decidirão não apenas se teremos testículos ou ovários, pênis ou clitóris, mas as características arquitetônicas dos circuitos de neurônios envolvidos no processamento das emoções e na estrutura básica do pensamento racional.

Nas mulheres, em obediência a uma ordem que parte de uma área cerebral chamada hipotálamo, a hipófise libera o hormônio FSH (hormônio folículo estimulante), que agirá sobre os folículos ovarianos, estimulando-os a produzir estrogênios, encarregados de amadurecer um óvulo a cada mês.

FSH e estrogênios dominam os primeiros 15 dias do ciclo menstrual com a finalidade de tornar a mulher fértil, isto é, de preparar para a fecundação uma das 350 mil células germinativas com as quais nasceu.

Atento ao desenrolar dos acontecimentos, ao detectar a ovulação no 14º dia do ciclo, o hipotálamo muda radicalmente de orientação e avisa a hipófise de que está na hora de liberar mais LH (hormônio luteinizante) para obrigar o ovário a produzir progesterona, com a função de preparar terreno para a passagem segura do óvulo fecundado pela trompa, para a sua implantação no útero e para assegurar continuidade à gravidez e ao aleitamento.

Se não houver fecundação, o ciclo terá sido fútil: a camada interna do útero (endométrio) desabará e os vasos que a irrigam sangrarão por alguns dias. Então, o todo-poderoso hipotálamo dará ordem para iniciar o ciclo seguinte.

Estrogênios e progesterona não são os únicos hormônios sexuais capazes de influenciar o comportamento feminino, mas são os mais importantes. Reduzida à essência, a ação dos estrogênios, liberados em grande quantidade na primeira metade do ciclo, é preparar para o sexo; a da progesterona, na segunda metade, é assegurar a integridade da gravidez.

Níveis elevados de estrogênio reduzem a fome, exaltam o olfato, o paladar, a disposição e a libido, tornam a pele sedosa e brilhante, bem como a vagina lubrificada e aquecida, diminuem a consistência do muco que obstrui o colo uterino para impedir a entrada de germes e aumentam a libido. O impacto estrogênico no cérebro desperta ímpetos sedutores, estimula a agressividade, a independência e a capacidade de planejamento, melhora o humor e tem efeito antidepressivo.

A predominância de progesterona nas duas semanas que antecedem a menstruação torna a pele menos brilhante, provoca retenção de líquido, inchaços, turgescência e dor nas mamas, diminuição da lubrificação vaginal e da libido, dificuldade de atingir o orgasmo, aumento do apetite e da temperatura corporal. A mulher se torna mais dependente, irritada com as atitudes masculinas, insegura, carente de proteção, menos criativa, menos carinhosa com os filhos e menos indulgente com os familiares.

Nos homens, o panorama hormonal é dominado pela testosterona, responsável pelo aumento das massas óssea e muscular e pelos caracteres sexuais secundários. Sua influência no comportamento pode ser resumida na aquisição de duas características predominantemente masculinas: espírito de competição e agressividade, graças às quais nossos antepassados exerceram poderosa atração sexual sobre suas companheiras desejosas de garantir a sobrevivência da prole acima de tudo.

Nos homens, os níveis sanguíneos de testosterona aumentam rapidamente com a chegada da puberdade, mantêm-se elevados até os 25 ou 30 anos e entram em declínio muito lento, que se acentua depois dos 65 anos. Descontado o salto da puberdade, não ocorrem variações hormonais imprevisíveis.

Nas mulheres, os ciclos que se iniciavam aos 16 ou 17 anos no início do século passado, hoje se instalam cada vez mais cedo, sem sabermos exatamente por quê. Não são raras as meninas que menstruam pela primeira vez aos 11 anos. A partir de então, eles se repetem mensalmente até a instalação da menopausa, lá pelos 50 anos, quando a função ovariana entra em falência. Da puberdade à menopausa, a sequência só é interrompida em caso de gravidez e amamentação, fases dominadas pela progesterona, o hormônio da maternidade.

A complexidade hormonal das mulheres, seres cíclicos, é incomparável à nossa. Diante delas somos singelos, para não dizer simplórios: nossas concentrações de testosterona num dia qualquer são praticamente idênticas às do dia anterior e às do mês seguinte. Só com o passar dos anos podemos notar o declínio lento. Em contraposição, nelas a composição e o equilíbrio entre os níveis estrogênios e de progesterona variam não apenas no decorrer da vida em função da maternidade e da menopausa, mas de um dia para o outro. Não existem dois dias de um ciclo menstrual em que as concentrações de estrogênios ou de progesterona sejam as mesmas.

Talvez por causa dessas diferenças as mulheres digam que os homens são todos iguais, enquanto nós dizemos que não dá para entender as mulheres.