Viver com diabetes implica uma rotina de atenção permanente. Medir a glicemia, planejar refeições, ajustar medicamentos, lidar com imprevistos e conviver com o medo constante de complicações fazem parte do cotidiano de quem tem a doença. Quando essa gestão diária se torna emocionalmente exaustiva, muitos pacientes passam a vivenciar o chamado “burnout do diabetes”, um esgotamento psicológico que pode resultar no afastamento do autocuidado e em impactos relevantes para a saúde.
Em 2025, a Federação Internacional do Diabetes (IDF) divulgou o atlas global da doença, que colocou o Brasil como o sexto país com maior número de casos (cerca de 16,6 milhões). O dado, por si só, já chama a atenção. Mas ele também ajuda a dimensionar um problema menos visível: o crescente número de pacientes que lidam com o esgotamento emocional associado à condição. De acordo com o mesmo levantamento, três em cada quatro pessoas com diabetes no mundo relatam sintomas de ansiedade, depressão ou outros transtornos relacionados à saúde mental.
“Antes de mais nada, vale esclarecermos uma confusão comum. O burnout não foi de fato reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma condição médica, mas sim como um fator de risco profissional. Posto isso, o ‘burnout do diabetes’ não é um diagnóstico psiquiátrico formal, mas um estado de esgotamento emocional crônico diretamente ligado ao manejo contínuo da doença”, explica Táki Cordás, psiquiatra, coordenador do Departamento de Saúde Mental da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e da equipe multidisciplinar do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq/HCFMUSP).
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Não existe dia de folga para quem tem diabetes
Ao contrário do estresse pontual, que tende a ser transitório, o burnout se instala de forma prolongada. No diabetes, a necessidade de controle constante ultrapassa o âmbito clínico e se infiltra em diferentes dimensões da vida, como trabalho, lazer, relações sociais, sono e viagens. “Não existe ‘dia de folga’”, reforça o especialista. “Há uma sensação frequente de que qualquer erro tem consequências. Isso cria um estado de vigilância constante que eleva o desgaste emocional ao longo dos anos. E o estresse prolongado aumenta o risco de depressão e ansiedade.”
Esse desgaste, porém, não se manifesta da mesma forma em todos os pacientes. Pessoas com diabetes tipo 1, sobretudo aquelas diagnosticadas ainda na infância ou adolescência, costumam apresentar sinais de esgotamento mais cedo, já que convivem com a doença desde períodos fundamentais da formação da identidade. No diabetes tipo 2, o esgotamento costuma surgir mais adiante, frequentemente associado à frustração com a evolução do quadro, à presença de comorbidades, como obesidade, ao sentimento de culpa por não alcançar metas consideradas ideais e ao receio de perda de autonomia.
Sofrimento pode ser confundido com negligência
Apesar da relevância do tema, o sofrimento emocional relacionado ao diabetes ainda recebe pouca atenção nos atendimentos de rotina. Parte disso se explica pelo formato das consultas, geralmente curtas e centradas em indicadores objetivos, como exames laboratoriais, níveis glicêmicos e metas terapêuticas. “Pode-se dizer que muitas vezes o olhar do médico recai na eficácia das questões orgânicas, não valorizando aspectos emocionais”, explica o dr. Táki.
Ao mesmo tempo, muitos pacientes têm dificuldade de expressar o que sentem. Nesse cenário, comportamentos ligados ao burnout acabam sendo interpretados apenas como “falta de adesão” ao tratamento. “Quando o paciente reduz medições, esquece medicamentos ou evita consultas, isso pode ser interpretado como descuido ou irresponsabilidade, quando na verdade pode ser um pedido silencioso de alívio”, diz.
Sintomas do esgotamento emocional no diabetes
Entre os sinais mais comuns de esgotamento emocional, estão: evitar medir a glicemia, demonstrar cansaço ao falar sobre a doença, faltar a consultas, alternar períodos de controle rígido com abandono completo do tratamento, sentir culpa intensa após pequenas falhas e verbalizar pensamentos como “não aguento mais”.
Não é raro que pacientes relatem o desejo de “fingir que o diabetes não existe”. Esse afastamento costuma gerar uma sensação inicial de alívio, por interromper temporariamente a vigilância constante, mas tende a ser seguido por culpa, medo e ansiedade. O resultado é um ciclo que aprofunda o sofrimento emocional e compromete o prognóstico clínico.
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Como lidar com o problema
Sob a perspectiva psiquiátrica, quando esse distanciamento do tratamento se prolonga, aumentam os riscos de agravamento do burnout, surgimento ou intensificação de quadros de ansiedade e depressão, queda da autoestima e sentimentos de desesperança, além dos efeitos diretos sobre a saúde física. Nessas situações, mudanças pontuais na medicação não costumam ser suficientes, já que a origem do problema está menos no esquema terapêutico e mais na carga emocional que ele impõe.
“Metas mais realistas reduzem a pressão de um ‘perfeccionismo glicêmico’ que, muitas vezes, é inalcançável e adoecedor”, ressalta o médico.
Estratégias como psicoeducação, acompanhamento psicológico, terapia cognitivo-comportamental, técnicas de manejo da ansiedade e avaliação psiquiátrica, quando indicada, podem ajudar o paciente a reconstruir uma relação menos punitiva consigo mesmo e com a doença. “Controle ideal não é sinônimo de perfeição. Viver bem com diabetes não é acertar sempre: é continuar tentando, com apoio, humanidade e limites possíveis”, finaliza o dr. Táki.




