Os medicamentos análogos do GLP-1, que imitam a ação do hormônio intestinal que regula o açúcar no sangue e a saciedade, já são consumidos por 5,5% da população brasileira, de acordo com a Euromonitor International, empresa que pesquisa mercados globais. Popularmente chamadas de “canetas emagrecedoras”, essas medicações são indicadas para tratar diabetes tipo 2 e obesidade.
As drogas semaglutida (Ozempic e Wegovy), liraglutida (Saxenda) e tirzepatida (Mounjaro) são registradas pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) e vendidas com retenção de receita a um preço pouco acessível à maioria dos brasileiros. Uma alternativa seria a oferta dos medicamentos nos serviços públicos de saúde, mas o SUS ainda estuda a implementação desses medicamentos no tratamento da obesidade.
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Com isso, os medicamentos contrabandeados, especialmente oriundos do Paraguai, têm ganhado popularidade e já movimentam um mercado ilegal estimado em mais de 2 bilhões de reais.
Nos últimos dias, a informação de que o Laboratório de Toxicologia Analítica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) havia encontrado o princípio ativo equivalente ao Mounjaro nos produtos vindos do país sulamericano gerou uma enxurrada de desinformação nas redes sociais e reações do próprio laboratório e da Anvisa.
Matéria sobre canetas emagrecedoras paraguaias
O jornal Folha de São Paulo encomendou uma pesquisa aos pesquisadores da Unicamp para que fossem analisadas as amostras das canetas paraguaias mais vendidas no mercado paralelo.
De acordo com o jornal, “o estudo analisou a presença, concentração e a estrutura molecular do princípio ativo das amostras dos medicamentos Tirzedral, TG, Lipoless, Tirzec e Gluconex, produzidas pelos laboratórios paraguaios Catedral, Indufar, Eticos, Quimfa e Lasca, respectivamente”. Esses medicamentos têm registro válido na Dinavisa, agência reguladora paraguaia, mas não na Anvisa, portanto não podem ser comercializados no Brasil.
O laboratório da Unicamp atestou que os medicamentos do Paraguai continham a tirzepatida, mesmo princípio ativo do Mounjaro. No entanto, o laboratório não avaliou outros atributos essenciais para atestar o padrão de qualidade, eficácia e segurança dos produtos, portanto não há garantia de que eles sejam seguros para o uso.
Isso porque identificar um componente não garante sua segurança, já que o modo como foi produzido, sua estabilidade, pureza, condições de armazenamento e outros dados técnicos que não foram avaliados pela Unicamp são essenciais para atestar a segurança e a eficácia de um medicamento.
Embora a matéria da Folha tenha deixado tudo isso claro, a manchete do jornal afirmando que o princípio ativo tirzepatida foi encontrado nos medicamentos deu margem à desinformação nas redes sociais, que foi desmentida posteriormente tanto pelo laboratório da Unicamp quanto pela Anvisa.
Canetas emagrecedoras paraguaias: o que dizem a Unicamp e a Anvisa
No último dia 7, o Laboratório de Toxicologia da Unicamp lançou nota em suas redes sociais afirmando que a presença da tirzepatida nas canetas paraguaias não é suficiente para comprovar sua equivalência ao Mounjaro. Segundo o laboratório, a análise toxicológica confirmou a presença da molécula, mas isso “não atesta a pureza do fármaco, a esterilidade da solução ou a ausência de contaminantes pesados gerados em rotas de síntese não validadas. A atestação de segurança, eficácia e bioequivalência é uma atribuição exclusiva da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), fundamentada em ensaios clínicos que não fizeram parte do escopo desta análise de bancada”.
Além disso, continua o laboratório, uma das amostras avaliadas continha 60% a mais da concentração do princípio ativo do que o rótulo indicava, uma superdosagem que pode provocar efeitos graves, como pancreatite e hipoglicemia severa.
Diante da repercussão da matéria, a Anvisa lançou, no dia 7, uma nota em que informa que:
“Os testes realizados pela Unicamp permitem dizer que havia presença de princípio ativo nos frascos. Entretanto, não é possível afirmar que são equivalentes, já que não foram feitas análises de impurezas, contaminantes, degradação do produto, esterilidade, presença de metais pesados, entre outros.
O mais importante: o teste NÃO avaliou a biodisponibilidade. Esse é o dado mais relevante para dizer que um medicamento funciona do mesmo jeito que outro”.
Por que o registro na Anvisa é importante
De fato, identificar o princípio ativo em um produto nem de longe atesta sua segurança ou equivalência ao medicamento de referência. Se assim fosse, praticamente qualquer medicamento poderia ser manipulado, bastaria utilizar o princípio ativo em sua formulação. Contudo, isso não é suficiente para demonstrar equivalência farmacêutica, que exige uma série de requisitos técnicos.
O registro de um medicamento na Anvisa não é arbitrário ou uma simples questão burocrática. Ele envolve a análise das informações completas do produto, como sua formulação, presença de impurezas, validação da metodologia utilizada, processo de produção e uma série de dados técnicos que atestem sua qualidade, segurança e eficácia.
O trabalho da Anvisa é reconhecido pelas principais agências reguladoras do mundo. Seu corpo técnico realiza uma tarefa primordial para o país, exatamente por ser rigoroso quanto à qualidade das informações fornecidas pelos fabricantes dos medicamentos.
Não se trata de proteção de um ou outro laboratório farmacêutico. Para que um medicamento venha a ser registrado e comercializado, é necessário que a Agência avalie a documentação administrativa e técnico-científica relacionada à qualidade, à segurança e à eficácia desse medicamento. Em tese, qualquer laboratório pode obter o registro, mas é mais provável que grandes indústrias tenham mais condições técnicas de fazê-lo.
É esse processo rigoroso que garante a qualidade dos medicamentos consumidos pela população brasileira.
Medicamentos não podem ser manipulados
É muito importante não consumir medicamentos que não tenham sido aprovados pela Anvisa. Eles podem oferecer sérios riscos à saúde. No caso dos medicamentos análogos do GLP-1, a manipulação foi proibida pela agência.
As Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) emitiram, em fevereiro do ano passado, uma nota oficial com um alerta sobre o uso de medicamentos injetáveis de origem duvidosa para o tratamento de obesidade e diabetes.
Segundo as sociedades médicas, os compostos originais desses medicamentos são de alta complexidade tecnológica, e exigem processos rigorosos de fabricação difíceis de reproduzir. Desse modo, os profissionais recomendam o consumo apenas dos medicamentos que sejam vendidos em farmácias autorizadas e tenham o registro da Anvisa.
Além disso, o uso dessas medicações deve ser sempre feito com acompanhamento médico.




