Por que mil brasileiros perdem o pênis todos os anos no Brasil? | Coluna

O câncer de pênis, apesar de evitável, é responsável por mais de mil amputações do órgão sexual masculino por ano no Brasil.

Mariana Varella é editora-chefe do Portal Drauzio Varella. Jornalista de saúde, é formada em Ciências Sociais e pós-graduanda na Faculdade de Saúde Pública da USP. Interessa-se por saúde pública e saúde da mulher. Prêmio Especialistas Saúde 2021 e Prêmio Einstein Colunista +Admirados da Imprensa de Saúde e Bem-Estar 2021 @marivarella

dorso de homem de costas, tomando ducha no banheiro. higiene adequada ajuda a prevenir o câncer de pênis

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O câncer de pênis, apesar de evitável, é responsável por mais de mil amputações do órgão sexual masculino por ano no Brasil.

 

Todos os anos, mais de mil brasileiros perdem o pênis devido a amputações causadas pelo câncer de pênis, de acordo com a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Um estudo conduzido no Maranhão, estado com a mais alta incidência desse tipo de câncer, revelou que a média de idade dos pacientes à época do diagnóstico é de 58 anos. Na pesquisa, realizada entre 2004 e 2014, mais de 20% dos 392 participantes tinham menos de 40 anos ao descobrir a doença, e mais de 90% precisaram se submeter à amputação total ou parcial do membro.

Veja também: Higiene íntima masculina

O câncer de pênis está totalmente relacionado a fatores socioeconômicos. É muito raro em países desenvolvidos, mas é responsável por cerca de 10% dos cânceres em homens na Ásia, América Latina e África. Embora não haja dados confiáveis, o Brasil figura como o país com a mais alta incidência desse tipo de câncer no mundo. O diagnóstico tardio está intimamente relacionado a um mau prognóstico.

As principais causas do câncer de pênis, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), são higiene íntima inadequada e infecção prévia pelo vírus HPV. Um câncer evitável, portanto, com medidas de prevenção como higiene correta e vacina contra o HPV, diagnóstico precoce e tratamento adequado.

Apesar de a vacina contra o HPV fazer parte do Calendário Nacional de Vacinação e ser oferecida gratuitamente no SUS, a adesão de meninos é baixa: até a metade de 2019, apenas 22% dos jovens de 11 a 14 anos haviam sido imunizados no país, segundo o Ministério da Saúde.

Além de ajudar a prevenir esse tipo de câncer, a vacina protege contra o câncer de colo de útero, reto, garganta, entre outros. É uma excelente maneira de cuidar dos meninos e dos seus futuros parceiros ou parceiras.

As amputações causam uma verdadeira tragédia na vida de inúmeros brasileiros, grande parte deles jovem. Em um país machista como o nosso, não é surpresa que uma doença que atinja o pênis cause constrangimento, por isso muitos ignoram os sintomas.

Sabemos que além da dificuldade de acesso a serviços de saúde, muitos homens só vão ao médico quando adoecem gravemente ou são levados por mulheres da família. Criados para serem provedores, muitos entendem que ficar doente é sinal de fraqueza.

Para mudar esse cenário é preciso falar a respeito. Devemos dizer que é essencial vacinar os meninos contra o HPV* e ensiná-los a se lavar, além de aumentar o acesso ao saneamento básico e a serviços de saúde. Os conservadores têm de entender que a sexualidade é assunto relevante para a saúde pública, e que não temos como alertar as pessoas sobre infecções sexualmente transmissíveis ou doenças que atinjam órgãos sexuais sem mencioná-los com clareza.

Sim, essas campanhas devem atingir as crianças também. Afinal, a melhor forma de reduzir preconceitos e tabus é abordar o tema com a naturalidade que ele merece, com o intuito de conscientizá-los sobre a importância de conhecer e cuidar do próprio corpo para manter a saúde.

As campanhas de promoção à saúde devem ser feitas com base em dados e evidências científicas e visar à prevenção de doenças e à redução de danos. Não há tema que não possa ser abordado, se for para ajudar a conscientizar e informar a população acerca dos riscos a que está sujeita. O silêncio abre espaço para desinformação e tabus, e só serve para tornar, como nos mostram diversos estudos, grupos e indivíduos já vulneráveis ainda mais estigmatizados e, consequentemente, mais suscetíveis.

 

*A vacina contra o HPV está disponível gratuitamente pelo SUS em 2 doses para meninos de 11 a 14 anos e meninas de 9 a 14 anos. Pessoas que vivem com HIV de 9 a 26 anos podem se vacinar com 3 doses. Além do câncer de pênis, a vacina ajuda a prevenir verrugas genitais (condiloma) e outros tipos de cânceres, como de colo de útero e de garganta.

 

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