Na semana de 12/03/2018, o Ministério da Saúde brasileiro anunciou a incorporação de dez novos procedimentos de saúde complementar oferecidos pelo SUS.

De acordo com o governo, a oferta dessas práticas é justificada por evidências científicas que comprovam seus benefícios à saúde dos pacientes. Mas o CFM (Conselho Federal de Medicina) discorda e diz que a ciência não comprova a eficácia dessas terapias.

O que realmente diz a ciência? Sera que ela comprova que esses procedimentos da medicina alternativa funcionam? Drops checou!

QUEM DISSE? Ministério da Saúde

O QUE DISSE? Evidências científicas têm mostrado os benefícios do tratamento integrado entre medicina convencional e práticas integrativas e complementares

QUANDO DISSE? 12/03/18

CHECAGEM: FALSO

Contexto

Na última segunda-feira, dia 12/3, o Ministério da Saúde brasileiro anunciou a incorporação de dez novos procedimentos que são agora oferecidos pelo SUS (Sistema Único de Saúde). As práticas somam-se a outros 19 tratamentos que já faziam parte da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), que conhecemos como “medicina alternativa”.

De acordo com o Ministério da Saúde, a oferta desses tratamentos é justificada por evidências científicas que comprovam seus benefícios à saúde dos pacientes, opinião não compartilhada pelo Conselho Federal de Medicina, que publicou uma nota dizendo que as práticas não apresentam resultado e eficácia comprovadas.

Mas o que realmente diz a ciência? Drops checou! 

* Entramos em contato com a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde a fim de saber quais seriam as evidências científicas mencionadas pelo órgão. No entanto, até o fechamento desta matéria não tivemos retorno.

O que diz a ciência

Para conferir quais tratamento realmente são eficazes e seguros, Drops trabalhou com dados da medicina baseada em evidências.

Consideramos assim apenas evidências científicas – e não relatos ou experiências individuais – para avaliar os potenciais benefícios à saúde de cada um dos dez procedimentos aprovados pelo Ministério da Saúde.

A conclusão de nossa checagem é que as dez práticas que agora integram o SUS não encontram respaldo na ciência médica. Ou seja, a afirmação “Evidências científicas têm mostrado os benefícios do tratamento integrado entre medicina convencional e práticas integrativas e complementares” é FALSA.

 

Veja abaixo detalhes do que encontramos sobre cada uma das dez práticas aprovadas pelo Ministério da Saúde

 

Apiterapia – método que utiliza produtos produzidos pelas abelhas nas colmeias como a apitoxina, geleia real, pólen, própolis, mel e outros.

Apesar da origem milenar da terapia, nossa busca não encontrou nenhuma publicação científica que aponte sua eficácia, o que coincide com artigo do site Science Based Medicine. No próprio site da Sociedade Americana de Apiterapia, o tratamento é apontado como uma prática experimental. Vale mencionar que já em 2013 um parecer emitido a pedido do Conselho Regional de Medicina do Paraná concluiu que “a apiterapia, por não estar embasada em evidências científicas não tem o seu uso reconhecido pelos Conselhos Regionais e Federal de Medicina”.

 

Aromaterapia – uso de concentrados voláteis extraídos de vegetais. Os óleos essenciais promovem bem-estar e saúde.

O uso de óleos essenciais não é incomum. No entanto, uma revisão sistemática da literatura sobre o tema apontou que os efeitos da aromaterapia não são suficientemente consistentes para que a prática seja considerada tratamento. Muitos estudos (como este, este e este) mostram que a aromaterapia não obteve os efeitos esperados e que as pesquisas sobre sua eficácia ainda são limitadas.

 

Bioenergética – visão diagnóstica aliada à compreensão do sofrimento/adoecimento, adota a psicoterapia corporal e exercícios terapêuticos. Ajuda a liberar as tensões do corpo e facilita a expressão de sentimentos.

Apesar da busca em diferentes sites de informação científica (Cochrane, Medscape, PubMed, Science Based Medicine, Google Acadêmico, entre outros), não encontramos literatura nacional ou internacional que forneça referências sobre a prática da bioenergética.

 

Constelação familiar – técnica de representação espacial das relações familiares que permite identificar bloqueios emocionais de gerações ou membros da família.

Apesar da busca em diferentes sites de informação científica (Cochrane, Medscape, PubMed, Science Based Medicine, Google Acadêmico entre outros), não encontramos literatura nacional ou internacional que forneça referências sobre a prática da constelação familiar.

 

Cromoterapia – utiliza as cores nos tratamentos das doenças com o objetivo de harmonizar o corpo.

A utilização das cores no tratamento e prevenção de doenças é citada em alguns artigos acadêmicos, por exemplo este, que apontam para resultados positivos da terapia. No entanto, a afirmação de que o uso de cores em tratamentos de saúde é eficaz foi revisada em 2004 por um estudo completo da  Coalition for Health Environments Research, que chegou à conclusão de que a prática não está baseada em pesquisas e evidências científicas significativas.

 

Geoterapia – uso da argila com água que pode ser aplicada no corpo. Utilizado em ferimentos, cicatrização, lesões, doenças osteomusculares.

Apesar da busca em diferentes sites de informação científica (Cochrane, Medscape, PubMed, Science Based Medicine, Google Acadêmico entre outros), poucas referências foram encontradas sobre a geoterapia. Alguns estudos, como este, chegam a apontar benefícios da prática para situações específicas, porém estudos com melhor metodologia ainda são necessários para validar a eficácia deste tratamento.

 

 

Hipnoterapia – conjunto de técnicas que utilizam o relaxamento e a concentração para induzir a pessoa a alcançar um estado de consciência aumentado que permite alterar comportamentos indesejados.

Ao avaliar análises da literatura como esta e esta, vimos que há uma possibilidade de a hipnoterapia ter algum efeito positivo no tratamento de determinados sintomas muito específicos. No entanto, ambas revisões citam como limitação a baixa qualidade metodológica dos estudos avaliados. Como afirma o site Science Based Medicine, são necessários mais estudos clínicos de boa qualidade para responder definitivamente se a terapia é eficaz.

 

Imposição de mãos – cura pela imposição das mãos próximo ao corpo da pessoa para transferência de energia para o paciente. Promove bem-estar e diminui estresse e ansiedade.

Em 1998, um estudo ganhou fama mostrando que os praticantes de imposição de mãos não conseguiam detectar um campo energético humano. Os praticantes ficavam de um lado de uma barreira, passando suas mãos por um vão. O pesquisador então pedia para que o suposto ‘terapeuta’ identificasse qual mão estava sobre a mão do pesquisador. Cada sujeito foi testado 10 ou 20 vezes. Os resultados foram um pouco piores do que se obteria jogando uma moeda: os praticantes erraram 56% das vezes. Em 2007, o grupo Cochrane não encontrou estudos clínicos metodologicamente corretos testando o efeito da imposição de mãos em distúrbios de ansiedade. Mais recentemente, em 2016, o mesmo grupo retratou uma avaliação sistemática sobre a imposição de mãos na cura de ferimentos agudos, reportando preocupações com a validade dos estudos analisados. Os resultados iniciais também foram inconclusivos.

 

Ozonioterapia – mistura dos gases oxigênio e ozônio por diversas vias de administração com finalidade terapêutica para promover a melhoria de diversas doenças.

Encontramos na literatura duas revisões de estudos sobre a ozonioterapia. Ambas as revisões, disponíveis aqui e aqui, concluem que as evidências disponíveis sobre a prática da ozonioterapia apresentam metodologia pouco clara e informação insuficiente para que eficácia desse tipo de terapia seja comprovada. Em outra revisão sobre a ozonioterapia, a conclusão é de que são ainda necessários outros estudos para tornar o tratamento viável.

 

Terapia de Florais – uso de essências florais que modifica certos estados vibratórios. Auxilia no equilíbrio e harmonização do indivíduo

A terapia que utiliza essências florais é relativamente popular e conhecida. Em nossa pesquisa, encontramos uma revisão sistemática publicada em 2010, na qual o autor consultou cinco bases de dados e avaliou todos os ensaios clínicos disponíveis. Ao final do trabalho sua conclusão foi de que os estudos clínicos mais confiáveis ​​não apresentaram diferenças entre remédios florais e placebos (tratamentos sem propriedade farmacológica). Um artigo de 2012 do site Science Based Medicine avaliou as informações disponíveis sobre a terapia de florais e também concluiu que não existem evidências científicas que suportem sua eficácia.

 

Fontes

Ministério da Saúde – http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2018/marco/12/Praticas-Integrativas.pdf – acesso em 15/3/18

Ministério da Saúde – http://portalms.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/42737-ministerio-da-saude-inclui-10-novas-praticas-integrativas-no-sus – acesso em 15/3/18

Conselho Federal de Medicina – http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=27485:2018-03-13-20-08-31&catid=3 – acesso em 15/3/18

Science Based Medicine – https://sciencebasedmedicine.org/bee-venom-therapy-grassroots-medicine/ – acesso em 15/3/18

The American Apitherapy Society INC – http://www.apitherapy.org/faqs/ – acesso em 15/3/18

Portal Médico – ihttp://www.portalmedico.org.br/pareceres/crmpr/pareceres/2013/2420_2013.pdf – acesso em 15/3/18

PubMed – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1313734/ – acesso em 15/03/18

PubMed – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22828020 – acesso em 15/03/18

PubMed – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1360273/ – acesso em 15/03/18

PubMed – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmedhealth/PMH0068629/ – acesso em 15/03/18

Mayo Clinic – https://www.mayoclinic.org/healthy-lifestyle/consumer-health/expert-answers/aromatherapy/faq-20058566 – acesso em 15/03/18

PubMed – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1297510/ – acesso em 15/03/18

Health Design – https://www.healthdesign.org/sites/default/files/color_in_hc_environ.pdf – acesso em 15/03/18

PubMed – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21676255 – acesso em 15/03/18

PubMed – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23236190 – acesso em 15/03/18

Pubmed – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4704659/ – acesso em 15/03/18

PubMed – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/9533499 – acesso em 15/03/18

Cochrane – http://www.cochrane.org/CD006240/DEPRESSN_therapeutic-touch-for-anxiety-disorders – acesso em 15/03/18

Cochrane Library – http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/14651858.CD002766.pub6/full– acesso em 15/03/18

PubMed – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21762655 – acesso em 15/03/18

PubMed – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21762655 – acesso em 15/03/18

Science Based Medicine – https://sciencebasedmedicine.org/hypnotherapy-for-pain-and-other-conditions/ – acesso em 15/03/18

PubMed – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK69042/ – Acesso em 15/03/18

Science Based Medicine – https://sciencebasedmedicine.org/bach-flower-remedies/ – Acesso em 15/03/18