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Artigo do Drauzio Varella

Os caminhos do tempo

Envelhecer nos dias de hoje não é mais como antigamente. A expectativa de vida aumenta e, com ela, surgem novos desafios. Leia no artigo de Drauzio Varella

Anos atrás, eu achava que os 80 anos me encontrariam num estado de serenidade plena. Claro que não tinha a pretensão de resolver as contradições do mundo, muito menos a de decifrar os mistérios da condição humana, mas imaginava que estaria livre das angústias e dos desacertos existenciais que me atormentavam.

Estava enganado. Os medos, a ansiedade, as frustrações e as perdas atribuídas ao envelhecimento são universais, não importa se você tem 40 ou 70 ou 90 anos. Lord Byron escreveu aos 36 anos:

“Meus dias estão nas folhas amarelas/ As flores e frutos do amor se foram/ O verme, a doença, e o luto/ São somente meus”.

Veja também: Outras Histórias #38 | A arte de envelhecer

A preocupação com o envelhecimento aflige a mulher e o homem moderno, muito mais do que inquietava nossos ancestrais. Eles viviam cercados por tantos perigos, que pensar nos problemas da velhice não fazia sentido. Assolados por doenças graves, guerras, fome e epidemias, completar 30 anos era privilégio de poucos no tempo das cavernas.

Embora sempre tenha havido mulheres e homens com 70 ou 80 anos, eles costumavam atingir essa idade em condições tão deploráveis que se referiam à velhice como fonte inesgotável de dores, limitações cognitivas, prazeres perdidos e decadência física.

Montagne escreveu há mais de 450 anos: “Que fantasia inútil esperar a morte causada pela perda dos poderes trazida pela idade avançada … Uma vez que essa é a mais rara das mortes … Nós a chamamos de natural, como se fosse contrário à natureza ver um homem quebrar o pescoço numa queda, afogar-se num naufrágio, ser dizimado pela peste ou pleurisia … Morrer em idade avançada é um evento raro, singular e extraordinário, portanto menos natural do que os outros”.

Desde Montagne, a expectativa de vida aumentou devagar. Num de seus textos, Machado de Assis se refere a um “velho gaiteiro de 50 anos”. Anos atrás, quem chegava aos 60 anos era sexagenário. No início da carreira, ao ouvir uma paciente dizer que tinha 70 anos, mas não se considerava velha, julguei que lhe faltasse autocrítica.

Em meados do século 20, o crítico literário Irving Howe escreveu: “Já tendo chegado aos 60 anos, penso com frequência na morte… Algumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada no peito, um ranger nos ossos da bacia. Outras vezes penso no desejo de mais tempo: para terminar outro livro, o fim de outro tirano para ser celebrado. As pessoas se iludem supondo que a fome de viver tenha alguma validade objetiva”.

Com a mesma idade, William Yeats publicou o poema: “O que farei com este absurdo/ Oh coração, Oh coração atormentado – esta caricatura,/ Idade decrépita que foi amarrada a mim/ Como a cauda num cachorro?”

Howe e Yeats morreram sem saber que, no século seguinte, os brasileiros com mais de 60 anos constituiriam a faixa etária que mais cresce. Se eles tivessem chegado aos 60 anos no Brasil de hoje, teriam a expectativa de viver mais 22 anos, em média.

Ao contrário dos que se retiravam da vida ativa aos 50, em obediência às recomendações médicas de “fazer repouso”, o desafio agora é envelhecer com sabedoria, o que implica em aceitar as limitações impostas pelo corpo, sem abandonar a atividade física e o desejo de experimentar o novo. É combater a vontade de desistir, de isolar-se, de achar que não vale a pena viver, de se queixar de tudo e de todos, o tempo inteiro.

É não se irritar quando se referem a nós, velhos, com eufemismos: terceira idade, melhor idade e idoso, palavras que nos infantilizam. Você compraria um vinho idoso ou da terceira idade? Pior ainda quando dizem que temos cabeça de jovem. Como você se sentiria aos 30 anos se lhe dissessem que sua cabeça é de 15?

Bernard Shaw escreveu aos 92 anos: “É mais difícil lidar com o envelhecimento do que com a morte… Acreditar na imortalidade genuína é acreditar no horror inimaginável”.

Em mais de 50 anos de oncologia, adquiri a impressão de que quem passou a existência sem fé religiosa, como eu, aceita com mais naturalidade a ideia do eterno não-ser. Enquanto não recebo a visita da indesejável senhora, procuro conduzir a vida com a filosofia do poeta: “Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. Ou, na linguagem simples de seu José Araújo, carcereiro do antigo Carandiru: “Sabendo levar, doutor, a vida é uma festa”.

Feliz Ano Novo.

 

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