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Hipersexualidade na demência: por que ocorre e como lidar?

A hipersexualidade pode surgir em alguns tipos de demência como resultado de alterações cerebrais que afetam o controle dos impulsos. O sintoma não tem relação com caráter e exige abordagem médica e cuidado adequado

A demência, por si só, já representa um grande desafio para a pessoa diagnosticada, seus familiares e cuidadores. Em alguns casos, porém, o quadro pode vir acompanhado de um sintoma que gera ainda mais impacto nas relações familiares e sociais: a hipersexualidade. Ela se caracteriza pelo aumento do desejo sexual ou por comportamentos considerados inadequados, como toques, abraços e beijos sem consentimento, além de exposição dos órgãos genitais e masturbação em público.

Esse tipo de manifestação não é frequente. Segundo o livro Advances in Psychiatric Treatment, publicado pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido, a hipersexualidade acomete entre 2% e 17% das pessoas com demência. Outros estudos, como um publicado na revista Geriatric Psychiatry and Neurology, apontam prevalência dentro desse intervalo, em torno de 9,3%.

Especialistas ressaltam que esses comportamentos não representam um desvio de caráter, perversão ou “falha moral”. Trata-se de um sintoma neurológico e deve ser encarado por familiares, cuidadores e pela sociedade como uma das possíveis manifestações da demência — condição que afeta cerca de 55 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Vale ressaltar que demência é um termo guarda-chuva, utilizado para definir um conjunto de síndromes causadas por diferentes doenças que, ao longo do tempo, provocam danos progressivos ao cérebro e levam à deterioração das funções cognitivas e comportamentais. A doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência, mas não a única.

 

Por que a hipersexualidade ocorre? 

Os comportamentos sexuais inadequados são mais frequentemente observados na demência frontotemporal (DFT), especialmente na sua variante comportamental. Também podem ocorrer na demência vascular, dependendo das áreas cerebrais acometidas. No caso de Alzheimer, esses sintomas podem aparecer, mas tendem a ser menos comuns.

Os casos de hipersexualidade estão associados à atrofia, isto é, ao encolhimento dos lobos frontais e, em alguns casos, do lobo temporal. Essas regiões são responsáveis pela regulação da conduta social, do julgamento, da empatia e do controle dos impulsos. Lesões em outras estruturas, como o corpo estriado, envolvido nos circuitos de recompensa e prazer, também podem intensificar a busca por estímulos prazerosos.

Para Marina Mamede Pozo, especialista em neurologia pela Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e integrante da equipe da plataforma de consultas médicas particulares INKI, entender a hipersexualidade exige olhar para o cérebro como um sistema que funciona com aceleradores e freios. A sexualidade é um impulso natural, ligado a áreas mais profundas e primitivas do cérebro, como o sistema límbico. Já o comportamento social adequado depende dos “freios”, localizados principalmente nos lobos frontais.

“Quando a demência afeta essas regiões — especificamente áreas como o córtex orbitofrontal e ventromedial —, o paciente perde a capacidade de inibição. É como se o freio quebrasse: o impulso surge e não há mais o filtro neurológico que diz ‘agora não é o momento’ ou ‘isso é inadequado’. Portanto, não é uma questão de mudança de caráter, mas uma falha mecânica nos circuitos de controle do cérebro”, explica. 

Veja também: Demências: fatores de risco, prevenção e sintomas

 

Quando os sintomas podem aparecer e quando buscar ajuda médica?  

O momento em que esses sintomas surgem ao longo das doenças neurodegenerativas é variável e depende da patologia envolvida. A hipersexualidade pode ser um dos sinais iniciais da variante comportamental da Degeneração Lobar Frontotemporal. Já na doença de Alzheimer, tende a aparecer em fases moderadas a avançadas, quando há maior desorganização do comportamento.

Segundo Lucas Mella, psiquiatra pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretor científico da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz – Regional São Paulo), a avaliação médica deve ser buscada o quanto antes. “A identificação e a investigação precoce dos sintomas favorecem o diagnóstico e o tratamento da patologia subjacente em estágios iniciais, quando as chances são maiores de melhora dos sintomas e de prevenção do agravamento para comportamentos de alto risco.”

 

Como é feito o acompanhamento? 

O manejo da hipersexualidade em pessoas com demência é, em geral, multimodal e começa por estratégias ambientais, comportamentais e de rotina. De acordo com o dr. Lucas Mella, essas estratégias incluem:

  • Garantir privacidade para higiene e troca de roupas; usar roupas com zíper ou botões/cordões menos acessíveis para reduzir manipulação em público;
  • Remover gatilhos visuais (canais de TV com conteúdo sexual, anúncios, sites e pop-ups; usar filtros e controle parental);
  • Separar ambientes de repouso de áreas sociais quando há risco de exposição;
  • Disponibilizar objetos de conforto tátil (como bola antiestresse ou manta) para “ocupar as mãos”;
  • Oferecer atividades regulares e significativas ao longo do dia (caminhadas, jardinagem, dobrar roupas, jogos simples, música), especialmente nos horários em que o comportamento costuma piorar;
  • Programar banhos e trocas de roupa em momentos de menor agitação (ter roteiro previsível reduz ansiedade e impulsividade);
  • Incentivar exercício físico diário leve a moderado, que ajuda a diminuir inquietação e tensão;
  • Planejar saídas curtas e com propósito claro e evitar locais superlotados em horários de pico;
  • Se houver parceiro(a), conversar sobre formas seguras e consensuais de intimidade que respeitem limites e privacidade, sempre observando a questão do consentimento na demência;
  • Redirecionar com calma e rapidez (por exemplo: “vamos tomar um café na varanda?”) em vez de repreender ou discutir. Usar a regra: parar, recuar um passo, redirecionar;
  • Evitar humor sexualizado, provocações ou roupas muito reveladoras do cuidador se isso for um gatilho;
  • Estabelecer limites claros e consistentes (“não é apropriado tocar, vamos sentar aqui”), sem humilhar nem confrontar em público;
  • Quando possível, designar cuidadores do mesmo sexo ou alternar duplas para reduzir gatilhos interpessoais;
  • Registrar padrões (quando, onde, com quem ocorre) para ajustar ambiente e rotina de forma preventiva.

Os medicamentos são indicados quando as estratégias de manejo comportamental e ambiental falham, segundo o médico. A escolha da classe farmacológica depende da neuropatologia de base, da gravidade dos sintomas, do histórico de falhas de tratamentos pregressos e dos possíveis efeitos adversos e riscos dos medicamentos para cada paciente.

“Em geral, psicofármacos com ação na serotonina predominante (como alguns antidepressivos) tendem a ser a primeira escolha. Diante da evolução insatisfatória com essa alternativa, pode-se optar por psicofármacos com ação de regulação da dopamina (como os antipsicóticos)”, esclarece ele. 

Veja também: Como cuidar de uma pessoa com demência?

 

Orientações para familiares e cuidadores

Para o dr. Lucas, é fundamental orientar familiares e cuidadores sobre a natureza desses comportamentos, deixando claro que a hipersexualidade nas demências decorre de uma disfunção neuropatológica do controle inibitório e do julgamento. Em outras palavras, surge da incapacidade da pessoa regular o próprio comportamento como fazia antes da doença.

“Dessa forma, evita-se que o comportamento da pessoa seja interpretado equivocadamente como deliberado e/ou direcionado a um cuidador ou familiar em específico. Além do mais, a partir do entendimento correto pode-se orientar as medidas mais efetivas para contornar e mitigar esses sintomas”, diz o especialista. 

Roberto Ratzke, psiquiatra e diretor técnico do Hospital Heidelberg, em Curitiba (PR), reforça que cuidadores devem receber treinamento em psicoeducação sobre a demência, além de técnicas de comunicação e adaptação do ambiente.

“O princípio é não confrontar ou corrigir o paciente, validar suas emoções, não tentar ensiná-lo. Rotinas estruturadas são essenciais especialmente na hora do banho, que costuma ser um momento difícil da interação entre familiar-paciente”, orienta. 

A escuta ativa e o acolhimento também são fundamentais, segundo Pedro Enrique Rujano, psicólogo dos hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru, também na capital paranaense. Ele destaca a importância de reforçar que o comportamento não é uma escolha nem uma perversão.

“Trata-se de um sintoma neuropsiquiátrico, assim como agitação ou delírios. O cérebro perdeu a capacidade de filtrar impulsos e interpretar normas sociais. Ajudar a família a separar a pessoa da doença reduz culpa, vergonha, raiva e estigmatização, favorecendo um cuidado mais empático e eficaz.”

O profissional destaca ainda que a psicoterapia é fundamental para cuidadores e familiares, oferecendo suporte emocional, manejo do estresse e orientação prática. 

 

É possível prevenir?

Segundo Pedro Enrique, medidas ambientais e de organização da rotina ajudam tanto na prevenção quanto no manejo desses comportamentos. Entre elas, estão uma rotina estruturada e previsível, atividades físicas e ocupacionais regulares, redução de períodos de ociosidade, ambientes com limites claros — sem caráter punitivo — e atenção ao conforto físico, como dor, constipação, infecções e privação sensorial.

“O manejo da hipersexualidade na demência exige equilíbrio entre proteção, dignidade e respeito à pessoa, reconhecendo que se trata de um sintoma da doença e não de uma falha moral. A abordagem deve ser sempre interdisciplinar, humanizada e proporcional ao risco”, conclui.

Veja também: Como se prevenir contra as demências?

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